sexta-feira, 26 de maio de 2017

Cinco motivos para desconfiar das intenções da Globo em sua súbita campanha para derrubar Temer. Por Joaquim de Carvalho




DO DCM:

O escândalo que fez de Michel Temer e de Aécio Neves mortos vivos da política brasileira não teria a mesma repercussão se a Rede Globo não estivesse com seus canhões mirados nos dois.
Mas é preciso separar o joio do trigo – no caso, um tipo de trigo é o trabalho dos procuradores da República e dos policiais federais em Brasília que, ao contrário de seus colegas no Paraná, trabalharam e trabalham em silêncio.
Eles apuram fatos, reúnem provas e estas falam por si.
Já a Globo, como fez no Fantástico deste domingo, começa a fazer uma campanha pela moralidade pública.
Nada contra.
Mas a Globo, liderando uma campanha desse tipo, é como ver a raposa tomando conta do galinheiro.
Cinco motivos para não confiar na emissora da família Marinho — dos mais recentes aos mais antigos:
  1. Paula Marinho, neta de Roberto Marinho, filha de João Roberto, um dos três proprietários da Rede Globo, era uma das clientes do escritório da Mossak Fonseca no Brasil. Segundo papelada apreendida pela Polícia Federal – e até agora não investigada –, ela pagava pela manutenção de uma offshore incluída no escândalo internacional de lavagem de dinheiro conhecido como Panamá Papers. A offshore, Vaincre, é a real proprietária da Paraty House.
  2. Eu estive nas Ilhas Virgens Britânicas e mostrei que a emissora abriu uma empresa de fachada, que, segundo a Receita Federal, serviu de veículo para sonegar impostos no Brasil devidos pela compra dos direitos de transmissão da Copa do Mundo em 2002. A fraude foi comprovada, mas o processo que incrimina os donos da Globo foram furtados do escritório da Receita no Rio de Janeiro na véspera de ser encaminhado para o Ministério Público Federal.
  3. A Globo manteve na Europa a jornalista Miriam Dutra, que dizia ter um filho com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Miriam recebeu salário durante muito tempo sem trabalhar e, segundo ela, a Globo foi beneficiada por mantê-la numa espécie de exílio. Entre os favores, segundo ela, estavam financiamentos do BNDES.
  4. A Globo apoiou a eleição de Tancredo Neves pelo Colégio Eleitoral com a condição de nomear o então ministro das Comunicações, que, mais tarde, ajudou a sufocar o dono de uma empresa que a Globo acabou comprando a preço vil. O caso está bem descrito no livro A História Secreta da Rede Globo, de Daniel Herz, e também no documentário Muito Além do Cidadão Kane.
  5. A Globo foi criada na década de 60 com dinheiro do grupo Time Life, americano, no auge da guerra fria. Essa injeção de dinheiro estrangeiro era proibida na época, e uma CPI no Congresso Nacional concluiu que a Globo não poderia ser concessionária de radiodifusão, em razão de fraudes – o dinheiro do grupo estrangeiro seguiu caminho subterrâneo, para disfarçar a sociedade com Roberto Marinho. Na época, desapareceu de um cartório no Rio de Janeiro a página do livro que descrevia um arrendamento de fachada. Na véspera do AI 5, a Globo ganhou a concessão em caráter definitivo.
Poderia citar muito mais aqui, como o empréstimo a juro subsidiado no governo Collor para construir o Projac, o lobby da Globo que transformou o horário eleitoral gratuito em crédito tributário ou a pressão sobre o governo estadual do Rio de Janeiro para alterar legislação de proteção ambiental e permitir a construção de edifícios no Jardim Botânico – especificamente o Parque Lage.
Por causa disso, o ex-governador Carlos Lacerda, que denunciou a pressão da Globo, chamou Roberto Marinho de Al Capone brasileiro.
A história dirá o que a Globo ganha com a queda de Michel Temer – de graça, pelo histórico da emissora, não é. Mas, neste tempo, sem os canhões dela, Michel se fortalece.
A Globo ergueu seu império graças aos “favores especiais” que prestou aos governos.
O livro Dossiê Geisel, baseado em documentos do general Ernesto Geisel em seus dias na presidência, cita essa expressão, como tendo sido criada por Roberto Marinho
O fundador da Globo a  usou para cobrar novas concessões de rádio e tv, como retribuição pelo que fazia em defesa da ditadura. Uma troca de favores especiais.
O ministro das Comunicações, Quandt de Oliveira, era contra, porque via nas novas concessões o risco da família Marinho atingir o monopólio do setor.
Como se vê hoje, Quandt perdeu na disputa.
E a Globo, na troca de favores com os militares, alcançou índices de audiência só comparáveis a estatais de TV em governos autoritários, como a Coreia do Norte, onde não existe concorrência.
O ex-governador Leonal Brizola, o único do primeiro escalão da política brasileira que não teve medo de enfrentar a família Marinho, dizia que é fácil saber o que é melhor para o Brasil.
Basta ir na direção contrária ao que defende a Globo.
A situação no País hoje é mais complexa e seguir na direção contrária à da Rede Globo significa, neste momento, apoiar Michel Temer.
Simplesmente, não dá.
A história do joio e do trigo é uma metáfora cristã, que diz que é preciso esperar que o joio e o trigo cresçam para que se identifique o que é joio e o que é trigo. E aí, sim, arrancar o que não presta, sem o risco de, ao retirar o joio, acabar também com a plantação de trigo.
A Globo é joio e cabe atenção para que, com a queda dos seus antigos aliados golpistas, ela não apresente a fatura.
Pode não parecer, mas é a Globo que é uma concessão do Brasil. E não o contrário.
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Jornalista, com passagem pela Veja, Jornal Nacional, entre outros. joaquimgilfilho@gmail.com

Aécio e a apreensão da PF: ele fez de tudo no mundo do crime nas barbas de Gilmar, FHC e mídia. Por Kiko Nogueira


— O que o Aécio não fez no mundo do crime?, me pergunta meu irmão Paulo Nogueira.
A resposta é óbvia: nada.


Amici

A Polícia Federal apreendeu no gabinete do senador, em seu apartamento no Leblon e na casa em Brasília um arsenal incriminador inacreditável.
Havia “diversos documentos acondicionados em saco plástico transparente, dentre eles um papel azul com senhas, diversos comprovantes de depósitos e anotações manuscritas, dentre elas a inscrição ‘cx 2’”, diz o relatório.
Recolheram também o seguinte:
. Um aparelho bloqueador de sinal telefônico, um telefone celular e um pen drive.
. “Uma pasta transparente contendo cópias da agenda de 2016 onde verifica-se agendamento com Joesley Batista”.
. “Folhas impressas contendo planilhas com indicações para cargos federais, com remuneração e direcionamento em qual partido político pertence ou foi indicado”.
. “Folhas impressas no idioma aparentemente alemão, relativo a Norbert Muller” (o doleiro que doleiro abriu a famosa conta secreta da família de Aécio em Liechtenstein).
. “Folha manuscrita contendo dados de CNO (Construtora Norberto Odebrecht)”.
. “Um caderno utilizado para realizar agendamentos, tendo presente Joesley Batista e Andrea Neves”.
. Um outro papel com citações ao “ministro Marcelo Dantas” (provavelmente, o ministro Marcelo Navarro Ribeiro Dantas, do Superior Tribunal de Justiça, investigado no STF por tentativa de obstruir as investigações da Lava-Jato).
Amici
O que explica isso?
Alguém falou em “amadorismo”. Um bandido profissional como Antônio Carlos Magalhães jamais cometeria esse deslize.
Errado.
Aécio tinha a certeza da impunidade.
A impunidade que lhe garantiu dinheiro, poder, uma vida mansa e uma longa e bem sucedida carreira ao longo de mais de 30 anos de vida pública.
Aécio nunca precisou esconder os malfeitos. Pergunte a qualquer jornalista mineiro.
Delinquiu nas barbas de Gilmar Mendes, de Fernando Henrique Cardoso, dos Marinhos, dos Civitas etc.
Um gângster que jamais foi incomodado, sempre teve costas quentes e se acostumou.
São todos cúmplices.
O Brasil escapou das mãos de um jagunço que chegou aonde chegou porque tinha a proteção de gente como ele.
Fonte: DCM

O Brasil de Claudia Cruz e Ticiana e o Brasil das marias. Por Nathalí Macedo, no DCM




Vivi cinco anos em uma faculdade privada de Direito. Cinco anos de leis bonitas – nossa Constituição, Santo Deus, é um poema –, professores garantistas e alunos que continuavam repetindo, como cupins de estaca com titica na cabeça, que “bandido bom é bandido morto.”
Cinco anos de uma tenra, mas crescente desesperança no meu país (nota: o meu país são as pessoas que o constroem).
A desesperança, ressalte-se, cresce um pouco a cada manchete.
Cresceu bastante hoje, quando li que Claudia Cruz, a esposa de Eduardo Cunha (não vamos esquecer do #SomosTodosEduardoCunha), foi absolvida por Sérgio Moro no processo da Lava Jato em que figurava como ré pelos crimes de lavagem de dinheiro e de evasão fraudulenta de divisas. Não há prova suficiente, argumentou Moro, de que ela teria agido com dolo (vontade de praticar o crime, em juridiquês). 
Claudia, a esta altura, está tão bem (ou quase) quanto Marcelinha, a princesa do Palácio do Jaburu, e Ticiana Vilas Boas, esposa do ricaço Joesley, que descansa do escândalo em um apartamento de mais de trinta milhões em Nova York, porque sofrer em território nacional é coisa de pobre. Coisa de Marias. 
No mesmo Brasil da absolvição de Claudia Cruz, bastaram os depoimentos dos policiais para a manutenção da prisão de Rafael Braga, aquele manifestante preso em 2013 com uma garrafa de Pinho Sol na mochila.
Nesse mesmo Brasil, o Superior Tribunal de Justiça negou liberdade a Maria, uma mãe de quatro crianças condenada a três anos, dois meses e três dias por furtar ovos de Páscoa e um quilo de peito de frango. 
E não adianta espernear: Brasil é lugar onde filho chora e mãe não vê (especialmente se a mãe tiver sofrido um golpe machista, risos).
Temos, aliás, dois Brasis: O Brasil de Claudia Cruz, Ticiana e Marcelinha – que é o Brasil da plutocracia –  e o Brasil de Maria, que, queiramos ou não, é o nosso Brasil.
O Brasil de Claudia Cruz é para poucas. Very Important Personal.
Por isso insisto, e insistirei ainda enquanto tiver fôlego, que sororidade sem recortes é história pra boi dormir. Claudia Cruz não sofre as mesmas opressões de Maria, tampouco eu, branca, escritora e mestranda, as sofro.
Perdoem o marxismo barato aparente, mas recorte de classe é necessário, e mais do que necessário, é urgente. 
São poucas as Marcelinhas e são muitas as Marias. Maria, que não tem um sobrenome aqui e em lugar nenhum, é apenas mais uma Maria. Somos Marias, todas nós, que usamos transporte público, que lidamos com assédios nas ruas, que lutamos dia após dia para sermos tratadas como gente enquanto Cláudias, Ticianas e Marcelinhas desfrutam da vida de sonhos que só a plutocracia proporciona.
Eu não quero viver em um país de Marias.
Eu quero viver em um país de todas. 
Fonte: DCM.

Mais uma prova da gritante "generosidade" do herói de Curitiba: Os processos provam que Moro foi carrasco de Marisa Letícia e anjo da guarda de Cláudia Cruz. Por Joaquim de Carvalho






"A leitura atenta de duas decisões do ministro Sérgio Moro mostra o desequilíbrio da Operação Lava Jato. A absolvição de Cláudia Cruz se deu apesar da comprovação de que mantinha, no exterior, uma conta corrente não declarada à Receita Federal e que recebeu depósito superior a 1,1 milhão de dólares.
"A lei determina a absolvição sumária no caso de falecimento do acusado, mas Moro se recusou a decretá-la no caso de Marisa Letícia Lula da Silva nos processos do tríplex do Guarujá e do Sítio de Atibaia. Limitou-se a declarar extinta a punibilidade – o que é óbvio: uma pessoa falecida não pode ser punida."

Do DCM:


O processo de Marisa contra a União por dano moral
A leitura atenta de duas decisões do ministro Sérgio Moro mostra o desequilíbrio da Operação Lava Jato. A absolvição de Cláudia Cruz se deu apesar da comprovação de que mantinha, no exterior, uma conta corrente não declarada à Receita Federal e que recebeu depósito superior a 1,1 milhão de dólares.
A lei determina a absolvição sumária no caso de falecimento do acusado, mas Moro se recusou a decretá-la no caso de Marisa Letícia Lula da Silva nos processos do tríplex do Guarujá e do Sítio de Atibaia. Limitou-se a declarar extinta a punibilidade – o que é óbvio: uma pessoa falecida não pode ser punida.
A diferença de tratamento nos dois casos vai muito além.
Cláudia Cruz demorou para ser intimada, recebeu seu passaporte de volta e, na sentença, Moro chega a dizer que não está comprovado que o dinheiro depositado na conta de Cláudia provém da corrupção:
“Assim, provado, objetivamente, que a conta em nome da Kopek não recebeu valores que possam ser rastreados até a Acona International, motivo pelo qual falta materialidade à imputação do crime de lavagem de dinheiro, tendo por antecedente o crime de corrupção. Então a imputação do crime de lavagem descrito como fato 05 da denúncia é insubsistente.”
“Não obstante, até o momento, foi de fato possível rastrear somente os ativos recebidos em um acerto de corrupção, envolvendo o contrato de Benin, sendo que o produto respectivo, de USD 1,5 milhão não foi destinado, sequer em parte, à conta em nome da Kopek. Então é prematura a afirmação de que os demais ativos também seriam produto de crimes contra a Administração Pública, sendo necessário aprofundar o rastreamento.”
Cláudia Cruz também não declarou à Receita Federal existência da conta no exterior nem o respectivo saldo. Isso pode ser considerado ocultação de patrimônio. Nesse caso, para absolver Cláudia, Moro aceitou a alegação da defesa de que quem administrava os rendimentos da família e cuidava das declarações de renda era Eduardo Cunha.
“A conta e seus ativos não foram, de fato, declarados pela acusada nas declarações de ajuste anual de imposto de renda, conforme evento 1, anexo48 a anexo 56. Entretanto, a escusa apresentada pela acusada, de que era o seu marido quem cuidava das suas declarações de rendimento, é plausível.”
Cláudia Cruz foi apresentadora da TV Globo e sócia de uma empresa pela qual recebia salário da emissora. Após sua saída da TV, processou a Globo e recebeu indenização. Cláudia Cruz não era nenhuma mulher alheia aos próprios negócios. Mas Moro a absolveu mesmo assim.
Para o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, que anunciou recurso à decisão, a sentença do juiz teve fundamentação que vai além do direito: “Cremos que isso decorre muito mais do coração generoso do dr. Sérgio Moro”.
Em relação a Marisa Letícia, não se pode falar em direito, muito menos em generosidade. Além de não absolvê-la, como manda a lei, o juiz a expôs à humilhação pública ao divulgar uma conversa particular entre ela e o filho Fábio, aquela em que Marisa diz que os coxinhas deveriam colocar a panela usada nos protestos em local que ela entendia mais adequado.
Era uma conversa privada, sem nenhum sentido para a investigação, mas foi exibida na TV e em jornais.
Em maio do ano passado, Marisa entrou com uma ação na Justiça Federal em São Paulo por dano moral. O processo é contra a União, já que Moro divulgou a conversa na condição de juiz federal. Quem defende a união são dois profissionais da Advocacia Geral  (AGU): Iolaine Kisner Teixeira e Gustavo Vicednte Daher Montes, coordenador do Patrimônio Público.
Eles transcrevem o trecho das panelas e, com base nas informações prestadas por Sérgio Moro, sustentam que o diálogo era relevante para a investigação. Diz Moro, segundo a AGU:
“A autoridade policial, ao destacar o diálogo, teve ele por relevante”.
Moro embaralha os fatos para explicar por que autorizou a divulgação do diálogo de Marisa, mesmo não sendo ela alvo das interceptações telefônicas no dia em que a conversa foi grampeada:
“Marisa (está com Z no original assinado por Moro, transcrito pelos advogados da União) Letícia Lula da Silva foi interceptada a pedido do MPF não por ser cônjuge do investigado Luiz Inácio Lula da Silva, mas porque, na investigação de ocultação patrimonial envolvendo possível crime de lavagem de dinheiro ou de corrupção e que motivou a interceptação, seria, segundo o MPF, coproprietária no edifício Solaris e do Sítio de Atibaia.”
Cláudia Cruz e o marido
A conversa de Marisa foi grampeada no dia 23 de fevereiro de 2016, com base no mandado assinado em 18 de fevereiro. Ela não era uma das pessoas que tiveram o sigilo telefônico quebrado através desse mandado. O nome de Marisa Letícia só vai aparecer numa ordem de interceptação telefônica posterior, de 7 de março.
O Ministério Público Federal, também ouvido nesta ação, não falou a verdade quando tentou justificar por que Marisa Letícia estava sendo investigada.
“A despeito de a empreiteira figurar ostensivamente como proprietária do imóvel, diversos elementos angariados durante as investigações dão conta de informar que a investigada, assim como sua família, frequentava o Edifício e desfrutava de sua infraestrutura.”
Lula esteve uma vez no apartamento e Marisa, duas, quando Léo Pinheiro tentou lhes vender o imóvel. Não existe uma única testemunha ou prova de que tenham dormido uma noite sequer no apartamento, mas, segundo o ofício assinado pelo Ministério Público Federal, Marisa “desfrutava de sua infraestrutura”. No ofício, assinado por Deltan Dellagnol e mais três procuradores, Marisa aparece como “Maria” em um trecho.
O processo contra a União corre na 23ª Vara da Justiça Federal, num prédio onde, no final da década de 70, um juiz federal, julgando uma ação civil movida pela família Herzog, responsabilizou a União pela morte do jornalista Vladimir Herzog e sinalizou que os dias tenebrosos da ditadura militar estavam chegando ao fim.
Os excessos da Lava Jato, com clara demonstração de uma balança com dois pesos e duas medidas, também podem ser reconhecidos a partir desta ação que corre em São Paulo. A República de Curitiba não deu paz a Marisa nem depois que ela morreu, e deixou Cláudia Cruz livre. Certamente, não foi por generosidade.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Vocação para Nero caricato: Temer é um governante acuado, covarde e, por isso, perigoso. Por Kiko Nogueira, no DCM





“Eu não vou renunciar. Se quiserem, me derrubem”, disse Temer em um de seus patéticos pronunciamentos depois da gravação com Joesley.
Foi feita sua vontade — e ele reagiu como o covarde que é.
Temer admitiu na quarta que foi ele, e não o presidente da Câmara Rodrigo Maia, quem convocou as Forças Armadas para a “garantia da lei e da ordem” em Brasília até o próximo dia 31.   
No final da quarta, Maia, visivelmente agastado com o patrão, dando sinais do rompimento que virá, cobrou do governo que “repusesse a verdade”, já que ele estava sendo responsabilizado pela sandice.
A decisão pegou de surpresa o governador de Brasília, Rodrigo Rollemberg, que reclamou por não ter sido consultado e reprovou a adoção da “medida extrema”.
Essa é a primeira vez em que esse recurso é utilizado para barrar atos de “vandalismo”, segundo o Ministério da Defesa informou à Exame.
É também a primeira vez que a medida é instaurada sem a petição de um governo estadual. Juristas sérios consideram inconstitucional o ato.
Segundo a Polícia Militar, 49 pessoas receberam atendimento médico após os protestos. Sete foram presas.
Temer é um governante corrupto, impopular, acuado — e, por isso, perigoso.
Perigoso para os brasileiros, pelo que já demonstrou em sua imensa falta de escrúpulos.
Perigoso também para si mesmo e sua família.
Um gesto como a renúncia, que poderia poupar o país da convulsão, demanda uma coragem e uma dignidade que ele nunca teve e nunca terá.
O suicídio não lhe passa pela cabeça.
A história é repleta de líderes fracos que, antes de cair em desgraça, devastam seu país.
Temer tem vocação para Nero. Incendiou uma nação e agora assiste o fogo queimar as instituições. Vê sua própria derrocada, refém de sua iniquidade, e vai até as últimas consequências.
Suetônio conta que o imperador romano foi declarado, quando perdeu seu reinado de terror, inimigo público.
Passou a ser perseguido pela famigerada guarda pretoriana, que ele teve a seu lado até ser traído.
Fugiu de Roma pela Via Salária com seu secretário Epafrodito. Ao ver um soldado romano se aproximando, Epafrodito não titubeou e apunhalou o chefe.
Suas últimas palavras são famosas: “Que artista morre comigo”.
Quem não tem Epafrodito caça com Maia. 
Fonte: DCM
Diretor-adjunto do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.