quinta-feira, 23 de março de 2017

Bemvindo Sequeira sobre a Terceirização dos Fascistas em um congresso vendido, covarde e empresarial



Segue vídeo de Bemvindo Sequeira sobre a covardia fascistóide de um congresso de vendilhões golpistas que parovaram leis contra a CLT e os trabalhadores:


"Como o golpe atual caminha apara a implantação de um modelo econômico e político fascista para exploração ainda mais selvagem para nós trabalhadores."

segunda-feira, 20 de março de 2017

Derrubar um governo ilegítimo e dizimador de direitos é uma questão de defesa da Dignidade. Artigo do Doutor em Ciências Políticas, Aldo Fornazieri



"Hoje, no Brasil, estamos diante de um governo que afronta, de forma planejada e insolente, a dignidade da pessoa humana. A primeira afronta reside no propósito mesmo pelo qual se constituiu: abrigar do alcance da lei um grupo de criminosos, convocados a ocupar os altos cargos da República para se protegerem no inescrupuloso mecanismo do foro privilegiado. Perpetrado este ato insidioso contra o interesse público, o presidente definiu como critério para a escolha de ministros da cúpula governamental que os pretendentes tivessem em seus currículos práticas corruptas e delituosas, configurando a condição de quadrilha no seu caráter. O último recrutamento validado por este critério é o do ministro Osmar Serraglio, o protetor do "grande chefe" da carne podre." - Aldo Fornazieri


Derrubar o governo Temer: uma demanda de dignidade, por Aldo Fornazieri

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GGN. -Quando os gregos antigos criaram a Polis (cidade) como comunidade política e teorizaram sobre ela, estabeleceram como princípio cardeal de sua construção e de sua condução a ideia de Justiça, entendida como satisfação das necessidades, promoção do interesse comum, agregação de bens materiais e bens morais e espirituais, garantia a todos de condições que os abrigassem dos tormentos da pobreza e da miséria e busca dos fins éticos da comunidade - fins comuns - pela prática das virtudes, única maneira de promover o encontro da busca da felicidade individual com a felicidade coletiva.
A cidade Justa implicava um senso reduzido de desigualdade e era a forma equilibrada de garantir também a liberdade. Os pensadores clássicos da filosofia política sempre entenderam que a desigualdade é a condição que destrói a vida cívica, a Justiça e a liberdade. O constitucionalismo moderno, sob diversas fórmulas, incorporou estes princípios fundantes da comunidade política, traduzida, hoje, no Estado-nação. Esses princípios, acrescidos pelo rol de direitos humanos, incorporando os direitos civis, políticos e sociais foram constituindo o que se conhece como dignidade da pessoa humana.
Hoje, no Brasil, estamos diante de um governo que afronta, de forma planejada e insolente, a dignidade da pessoa humana. A primeira afronta reside no propósito mesmo pelo qual se constituiu: abrigar do alcance da lei um grupo de criminosos, convocados a ocupar os altos cargos da República para se protegerem no inescrupuloso mecanismo do foro privilegiado. Perpetrado este ato insidioso contra o interesse público, o presidente definiu como critério para a escolha de ministros da cúpula governamental que os pretendentes tivessem em seus currículos práticas corruptas e delituosas, configurando a condição de quadrilha no seu caráter. O último recrutamento validado por este critério é o do ministro Osmar Serraglio, o protetor do "grande chefe" da carne podre.
Instalada no governo, destruir os princípios da comunidade política tornou-se o objetivo principal dessa quadrilha. Nenhuma comunidade política subsiste se o seu funcionamento político-constitucional não estiver alicerçado na observância da moralidade. A indiferença zombeteira com que o governo trata os reclamos de moralidade pública vindos da sociedade, o "tanto faz como tanto fez" em relação ao temporal de acusações que recai sobre o presidente, a cúpula do governo e os seus principais aliados no Congresso representa o dilaceramento ético da sociedade e a morte moral da nação. As páginas da história do Brasil não registram nenhum paralelo de prática de degradação da dignidade do povo comparável à que chegou esse governo. A ausência de sentimentos morais por parte deste governo não espanta apenas os brasileiros que ainda mantêm virtudes cívicas em suas almas, mas espanta também o mundo que dele toma conhecimento.
O desprezo desaforado que este governo nutre pelos valores cívicos, éticos e morais, o torna insensível perante os sofrimentos dos desempregados, dos milhões de pobres que voltaram a crescer e da desigualdade que se agravou. O governo desonra os trabalhadores tirando-lhe direitos conquistados, humilha as pessoas atormentando-as com o medo das incertezas e com a prisão da desesperança. Trata-se de uma cúpula política toda que se regozija com a depressão e a desgraça dos cidadãos.
Este governo degrada as mulheres quando o presidente ilegítimo afirma que sua principal função é fiscalizar os preços dos supermercados, quando o presidente da Câmara afirma que ao igualar a idade de aposentadoria em 65 anos atende uma demanda das feministas e quando o ministro da Saúde as culpa pela obesidade das crianças. Esse governo perde o senso do respeito quando o presidente nomeia o primo de Gilmar Mendes, o juiz que irá julgá-lo no TSE, para um alto cargo público. E o que dizer dos encontros solertes entre Gilmar Mendes e Temer para arquitetar a salvação de criminosos e a morte da República? E o que dizer de Temer que aceita a chantagem de um criminoso preso - Eduardo Cunha - nomeando prepostos seus para altos cargos?
Momento de indignação e de luta
Que país é este que aceita a destruição de sua substância social e moral? E pensar que todos sabem quem este governo é e o que faz. Teremos capitulado todos diante da vitória dos malvados e da destruição dos valores cívicos? Teremos perdido a coragem em face de um sentimento de impotência que deveria nos perturbar? Estaremos todos entregues a meros cálculos eleitorais projetados para 2018 não reagindo com veemência e vigor ante um governo que quer fazer terra arrasada das penosas conquistas sociais? Terão os movimentos sociais e os partidos progressistas perdido os sentimentos de bravura e de coragem ao aceitarem que este governo perdure até o final do próximo ano, praticando sua sanha destruidora de direitos?
E se a consequência de tudo isto for um 2018 que coloque a sociedade brasileira perante o perturbador dilema de uma escolha entre a direita e a extrema-direita, como ocorre hoje em países europeus? Se o triunfo do golpe foi uma terrível derrota para a democracia e para o povo, a passividade em face desse governo agravará ainda mais esta derrota. Lutar pelo fim deste governo é uma demanda de dignidade humana, de compromisso com os trabalhadores e com os mais pobres, de solidariedade com as mulheres, de compaixão para com o sofrimento de muitos. Lutar pelo fim deste governo significa resgatar milhões de brasileiros da humilhação que sofrem; significa semear uma semente de esperança no coração dos jovens; um alento de segurança dos idosos que vêem suas aposentadorias destruídas pelos golpes impiedosos dos que tomaram o Brasil de assalto. Não é possível ter mesura alguma com um governo que não tem nenhuma mesura com a dignidade humana, com os direitos, com a moralidade e com o respeito.
Que os protestos de 15 de março sejam um marco de uma virada da humilhação do Brasil em benefício do resgate da sua dignidade, em benefício da recuperação da corajosa humildade. Que seja o início do constrangimento da insolência desse governo pela força das ruas. Que seja um chamado, uma convocação, à unidade dos movimentos sociais e dos partidos progressistas e de esquerda para uma caminhada conjunta com Lula, com o PSol, com o PC do B, com Ciro Gomes, com o MTST, com o MST, com os sindicatos e centrais sindicais, com as mulheres, negros, jovens e tantos outros movimentos sociais. Este momento não é um momento para se dividir em torno de candidaturas, mas é um momento de se unir para barrar a destruição do Brasil. É o momento de marchar juntos contra a reforma da previdência e demais reformas retrógradas. Se isto não for compreendido, o 2018 poderá se tornar um amargo cálice de fel para todos aqueles almejam uma sociedade justa, digna, igualitária e livre.
Aldo Fornazieri - Professor da Escola de Sociologia e Política.


domingo, 19 de março de 2017

"Coxinhas", por Luis Fernando Veríssimo








O ex-chefe da Secretaria Nacional de Juventude, exonerado do cargo porque lamentou que não houvesse mais chacinas nas prisões, prefaciou sua declaração dizendo que, nesse assunto, era “coxinha”. Me surpreendi. Sempre achei que “coxinha” fosse o bem-humorado apelido dado às pessoas, na sua maioria de classe alta ou média, que se manifestaram pelo impeachment da Dilma em particular e contra o PT em geral.

“Coxinha” era o oposto de petista. Se eu fosse construir a imagem de um típico “coxinha” seria um jovem não necessariamente rico, mas bem de vida, com um sincero horror do PT e simpatizantes, convencido de estar defendendo a democracia, além dos seus privilégios. Jamais imaginaria o bom moço aprovando a guerra de facções e suas terríveis consequências dentro das prisões, para resolver o problema das superlotações.

Mas o ex-secretário da Juventude, aparentemente, tem outra definição para “coxinha”. Confessou-se um “coxinha” para justificar uma opinião que só poderia ser de um “coxinha”.

Quantas pessoas se descobririam “coxinhas”, no mau sentido, se precisassem se definir sobre o assunto? O pensamento nazista é tentador. As experiências de eugenia feitas pelos nazistas para purificação da raça são precursoras do que se faz hoje em matéria de engenharia genética.

Com uma diferença: os nazistas faziam suas experiências em crianças, sem anestesia. A eugenia é um bom exemplo, ou um péssimo exemplo, do que ocorre no Brasil, há séculos. Há por trás do tratamento dado aqui ao negro, ao pardo e ao pobre, cuja amostra mais evidente é esse sistema carcerário ultrajante, um mal disfarçado intuito de purificação.

Empilhar criminosos, independentemente do caráter do crime, em cadeias infectas e esperar que eles se entredevorem é um método prático de depuração. Os campos de extermínio nazista — abstraindo-se a questão moral — eram exemplos de praticidade. A longa história de descaso das autoridades brasileiras pelo escândalo das cadeias é a abstração moral em pessoa.

Abstraindo-se a questão moral, a receita “coxinha”, no mau sentido, para o problema faz bom sentido. As facções se aniquilam mutuamente, os bandidos sofrem o que merecem — sem anestesia — e a nação agradece. Portanto: ignore-se a questão moral.

Luis Fernando Veríssimo

Carne Fraca ou Golpe descaradamente em continuação? Brazil: a Dr. Phibes hypothesis, por Fábio de Oliveira Ribeiro



"O ataque ao setor agroexportador de carnes provocará danos sérios e duradouros à imagem e à economia brasileira. Ele ocorreu no momento em que as reformas do usurpador Michel Temer começaram a ser contestadas nas ruas e rapidamente se tornou o assunto dominante nas redes sociais. Mas este não é o primeiro setor da economia a ser trucidado pelo golpe de 2016.

A Petrobras está sendo fatiada e vendida a preço vil. O mesmo está sendo feito com as reservas petrolíferas recentemente descobertas no litoral brasileiro. "



Brazil: a Dr. Phibes hypothesis, por Fábio de Oliveira Ribeiro



GGN. - O ataque ao setor agroexportador de carnes provocará danos sérios e duradouros à imagem e à economia brasileira. Ele ocorreu no momento em que as reformas do usurpador Michel Temer começaram a ser contestadas nas ruas e rapidamente se tornou o assunto dominante nas redes sociais. Mas este não é o primeiro setor da economia a ser trucidado pelo golpe de 2016.
A Petrobras está sendo fatiada e vendida a preço vil. O mesmo está sendo feito com as reservas petrolíferas recentemente descobertas no litoral brasileiro.
A indústria naval foi destruída com uma só canetada. Ao cancelar encomendas feitas no Brasil, o presidente da Petrobras matou os estaleiros e prejudicou os empresários que forneciam equipamentos e matérias-primas empregadas na construção de barcos e plataformas petrolíferas.
Isto ocorreu pouco depois das grandes empresas de engenharia nacionais começarem a ser destruídas pela Lava-Jato. Elas desempenhavam um papel importante na estrutura de conteúdo nacional criada em torno da Petrobras e da produção dos novos submarinos franco/brasileiros. O espaço que empresas como Odebrecht começaram a ocupar no exterior rapidamente será preenchido por suas concorrentes europeias e norte-americanas.
Com razão Luis Nassif já pergunta qual será o próximo setor da economia a ser destruído. O jornalista Paulo Henrique Amorim disse que eles querem a carne do Lula. É fato: o usurpador já está tentando se apropriar da paternidade das obras do ex-presidente petista.
Nosso país está sendo metodicamente desmantelado. Antes disto ocorrer, porém, o Brasil foi politicamente desestabilizado até que o golpe de estado tivesse sucesso para colocar em prática a demolição econômica em curso.
O primeiro ato de terrorismo político contra o Brasil foi a rejeição do resultado da eleição por Aécio Neves. Seguiram-se as passeatas contra o aumento de 20 centavos nas passagens de ônibus. Rapidamente o conteúdo político destas manifestações foi modificado. Elas foram transformadas em manifestações anti-PT, anti-Dilma e, finalmente, pró-impedimento. Sérgio Moro rasgou a legislação ao mandar gravar conversas entre Lula e Dilma Rousseff que, vazadas para a imprensa, criaram um clima de legitimação popular para a revogação da soberania popular.
A classe média engrossou as passeatas, que foram adquirindo uma regularidade maior e recebendo mais apoio empresarial. Desfechado o golpe com o aval do STF (que mandou prender o presidente da Câmara dos Deputados somente depois que ele conseguiu rasgar 54,5 milhões de votos através de uma fraude), tudo voltou ao normal. Michel Temer foi autorizado a dar pedalas fiscais (motivo do afastamento e do impedimento de Dilma Rousseff). As passagens de ônibus continuam a ser reajustadas e ninguém sequer lembra que o grande movimento pelo impedimento começou por causa de 20 centavos.
Primeiro ocorreu a desestabilização política. Seguiram-se a destruição da credibilidade do PT, o golpe de estado mediante um impedimento fraudulento, a revogação de direitos sociais, previdenciários e trabalhistas e o desmantelamento da economia nacional. Nenhuma das medidas tomadas pelo usurpador, pelo MPF, pela Justiça Federal e pela Polícia Federal são ou serão capazes de criar emprego e renda. É previsível um aumento do desemprego e do desespero no exato momento em que o Estado quer deixar de assegurar qualquer renda à população fomentando o desenvolvimento ou custeando programas sociais.
O próximo desdobramento da crise será (como corretamente estão prevendo os militares) um aumento do desespero e a radicalização política. Aprofundada deliberadamente por Michel Temer e o bando de ladrões que ele enfiou nos Ministérios, a crise política e econômica pode evoluir para o caos e, eventualmente, para a fragmentação territorial (caso em que as Forças Armadas terão que decidir se elas se autodestruirão ou se preservarão a integridade do Brasil).
Vendo tudo o que ocorreu em retrospecto (e traçando cenários do que ainda está por vir), não podemos deixar de imaginar que algo ou alguém elaborou um plano e conseguiu fazer os principais atores políticos, judiciários e policiais a seguir um roteiro. O objetivo final é a implosão do nosso país. Este mestre do terror, que persegue seu intento de maneira obsessiva e dramática parece até um personagem de cinema: o famigerado Dr. Phibes.
Aqueles que como eu cresceram vendo TV preto e branco na década de 1970 certamente se lembram do filme The Abominable Dr. Phibes (1971). Ele foi reprisado dezenas de vezes nos canais de TV aberta. Phibes tem um plano (vingar a morte da esposa) e nada é capaz de o fazer se desviar do seu objetivo. Ninguém é capaz de impedi-lo de matar de maneira teatral e escabrosa as pessoas que participaram da mal sucedida cirurgia de sua esposa. Ao contrário de outros vilões, Phibes não faz questão alguma de sobreviver. Após concluir sua tarefa ele encena a própria morte. E nem mesmo os policiais conseguem ver gran finale.
Mutilado num acidente, Phibes fala conectando-se a um alto-falante. Quando não está executando o seu plano, ele toca órgão ou aprecia bandinha de bonecos colocada acima do nível do grande salão. A interpretação exagerada de Vincent Price confere algo especial ao filme. É impossível gostar do vilão, mas nenhum expectador consegue realmente odiá-lo. Ao ver The Abominable Dr. Phibes ficamos querendo saber como será a próxima morte e nos esquecemos de que é crime matar alguém pouco importando a motivação ou o método empregado.
A destruição política, economica e territorial o Brasil parece seguir este padrão. As vidas de 200 milhões de brasileiros estão em jogo, mas nós esquecemos disto por causa da teatralidade do que está ocorrendo. Intuímos que estamos sendo conduzidos para o matadouro mas agimos como se quiséssemos ver o que vai ocorrer na próxima cena. E o desemprego continua a crescer e a espalhar desespero e preparar o terreno para algo pior. Apreciem o filme, no final a grande escuridão descerá sob o Brasil como inevitavelmente desce sobre o Dr. Phibes.


Xadrez para entender a operação Carne Fraca (Xadrez do golpe). Por Luis Nassif


"Aí entra em cena o delegado Moscardi Grillo montando o pandemônio da Operação Carne Fraca, com mais de mil delegados investindo contra as maiores empresas brasileiras no ramo de alimentos. E, junto com ela, vazamentos seletivos envolvendo o novo Ministro da Justiça Osmar Serraglio (PMDB-PR) um dos muitos suspeitos que integram o Ministério Temer."




Peça 1 – o ambiente interno na Polícia Federal


GGN. - O maior erro de Dilma Rousseff foi a indicação de José Eduardo Cardozo para Ministro da Justiça. Os dois erros seguintes foram consequência natural do primeiro erro: a indicação do Procurador Geral da República Rodrigo Janot e do Diretor Geral da Polícia Federal Leandro Daiello Coimbra.
Aliás, o erro maior foi quando, pressionado por Gilmar Mendes, Lula afastou o delegado Paulo Lacerda do governo.
A Polícia Federal é composta por vários grupos políticos, sob muita influência do PSDB. Lacerda era o único delegado com liderança que se sobrepunha aos grupos e mantinha a corporação sob controle.
Quando Lula anunciou sua saída, a então Ministra-Chefe da Casa Civil Dilma Rousseff recebeu a visita desesperada do ex-Ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos para que convencesse Lula a não se desfazer de Lacerda, então na ABIN, sob risco de perda de controle da PF.
Último Diretor Geral, Daiello sempre foi um subordinado à altura de Cardozo: completamente anódino, sem nenhuma liderança sobre a corporação, mantendo-se no cargo à custa de abrir mão de qualquer veleidade de liderança sobre a tropa. Algo similar ao que ocorreu com Janot.
Ambos acabaram perdendo o controle sobre a Lava Jato, que se tornou um poder maior sobre eles e, de certo modo, seus avalistas.
Hoje em dia, a falta de comando de Daiello sobre a PF é criticada por políticos de todos os partidos, por advogados, setores empresariais e pelo próprio governo Temer. Parte relevante deles, evidente, por estarem sob ameaça da Lava Jato. Mas parte por perceber que a falta de controle total sobre esses grupos criou uma ameaça efetiva à economia.   
A única coisa que o sustenta é o impacto da Lava Jato e o fato de ter dado poder total ao seu grupo e especialmente à PF do Paraná.
Há tempos Daiello negocia sua saída, mas com duas pretensões:
1.     Pretende uma vaga de adido policial em alguma embaixada.
2.     Pretende fazer seu sucessor. Entre os candidatos, o preferido é o delegado Maurício Valeixo, paranaense que já foi responsável pela inteligência da PF em Brasilia, depois adido policial em Washington.

Peça 2 – onde entra a Operação Carne Fraca


Há um jogo de interesses claros entre os delegados do Paraná, os procuradores e Daiello. Do lado da PF do Paraná, os principais operadores são o delegado Maurício Moscardi Grillo, o mesmo que tentou censurar jornalistas, e o delegado Igor Romário de Paula. Ambos criaram um poder paralelo dentro da PF.
A Operação Carne Fraca se insere nessas disputas internas da PF. Igor Romário abriu um inquérito contra Valeixo, para afasta-lo da disputa. Moscardi monta a operação para fortalecer Daiello.
Seu espaço político é garantido pela parceria com a mídia e pela promessa, nunca cumprida, de levar Lula à prisão.
Por outro lado, está em andamento uma investigação sobre o grampo clandestino encontrado na cela do doleiro Alberto Yousseff e outras irregularidades cometidas pelos delegados paranaenses. Quando começaram as investigações, imediatamente os procuradores da Lava Jato se valeram de sua influência no Judiciário paranaense para abrir processos contra os delegados que denunciaram a ilegalidade.
Os processos acabaram não dando em nada.
O pacto é este.
De seu lado, Daiello mantém a correição sob controle. Do lado do Paraná, recebe o respaldo dos delegados, quando o apontam como a maior garantia de continuidade da Lava Jato. Mesmo assim, as investigações são como uma espada de Dâmocles sobre o pescoço dos delegados explicando alguns problemas emocionais desses espíritos frágeis a ponto de alguns deles solicitarem remoção do cargo.
A Operação Carne Fraca surge desse embate. Havia sinais no horizonte de que o governo Temer começava a preparar a fritura de Daiello.
Aí entra em cena o delegado Moscardi Grillo montando o pandemônio da Operação Carne Fraca, com mais de mil delegados investindo contra as maiores empresas brasileiras no ramo de alimentos. E, junto com ela, vazamentos seletivos envolvendo o novo Ministro da Justiça Osmar Serraglio (PMDB-PR) um dos muitos suspeitos que integram o Ministério Temer.

Peça 3 – onde entra o Brasil


Foi uma luta árdua do país, para assumir um protagonismo no mercado mundial de alimentos e, especialmente, no comércio mundial de carnes.
Atualmente, só as exportações de carne bovina, suína e de frango rendem US$ 12 bilhões por ano, para um mercado diversificado, que inclui Arábia Saudita, China e Japão. 
Para a Europa, as exportações começaram em 2000. E apenas no ano passado, o país conseguiu aprovação para embarcar carne in natura para os Estados Unidos, cumprindo todas suas exigências.
A disputa mundial é um jogo pesado, onde os aspectos sanitários são essenciais. Para entrar no Oriente Médio, por exemplo, a indústria brasileira precisou desenvolver toda uma metodologia de abate de bois, respeitando as tradições religiosas dos países compradores.
A cadeia da carne envolve milhares de pequenos produtores, é peça central na economia de estados como Santa Catarina. Com a indústria catarinense andando de lado, o aumento das exportações de frango (36%) e de suínos (74%) aumentou a receita do setor no estado. E havia expectativa de crescimento das vendas, com uma visita programada de empresários da Coreia do Sul.
A perda de controle da PF, no entanto, produziu esse desastre para a imagem das empresas brasileiras no mundo, um setor em que o Brasil já dominava 7% do mercado mundial, com meta de chegar a 10%.
Um problema histórico – a corrupção da fiscalização sanitária -, em vez de uma ação eficaz e discreta, se transformou em um enorme show, unicamente para atender os interesses do delegado Moscardi de sustentar politicamente Daiello e manter sob controle as correições da PF. E essa disputa, agora, coloca em risco um dos setores centrais da economia brasileira.

Peça 4 – como impedir que PF e MPF destruam a economia


A perda de controle sobre a PF e o MPF está promovendo a destruição de setores relevantes na geração de divisas, emprego e tributos.
No entanto, há uma covardia generalizada tanto das lideranças empresariais como dos grupos de mídia, para estabelecer controles mínimos sobre os “jovens turcos”, impedir que o combate à corrupção não desmonte de vez a economia nacional.
A única ação sensata seria uma liderança que coibisse os abusos de delegados como Moscardi e Igor, de procuradores como Dallagnoll e Carlos Fernando, sem prejudicar o combate efetivo à corrupção.
O que esperar de Temer, um governo reconhecidamente corrupto, que loteou o Ministério entre o que de pior a política brasileira produziu? É Osmar Serraglio, o homem de Eduardo Cunha, que definirá a disciplina na PF? Evidente que não.
É esse o dilema em que se meteu o país e uma imprensa pusilânime, que se tornou refém dos monstros que ajudou a construir.

sábado, 18 de março de 2017

Para entender o (mal do) fascismo. Texto de Rosane Pavam



       "O fascismo tem características essenciais. É um movimento, não uma ideologia, esta que prontamente se pode alterar conforme o gosto do ditador no poder. O líder fascista não se obriga a obedecer o próprio programa de governo, aliás nem mesmo tem um: seus eventuais princípios e promessas de campanha (quando a eleição existe) podem ser alterados sem necessidade de mais explicações. O que importa é a submissão do indivíduo aos interesses do Estado (no caso de Hitler, do partido) e à figura de seu condutor máximo. Quem adere ao fascismo não necessariamente pertence a um grupo dominante. O fascismo é um fenômeno horizontal, ao contrário do socialismo, que implica o fortalecimento de uma classe, a trabalhadora. Pobres e ricos são fascistas unidos desde sempre. A potencialidade do movimento depende da ação de uma imprensa manipuladora, rendida aos interesses de grupos conservadores, os verdadeiros beneficiados pela adesão a esse sistema. Os conservadores utilizam os fascistas quando lhes convém e se desapegam deles quando não mais lhes servem. O desejo generalizado que o fascismo manipula é o de “mudança” e engrandecimento nacional, percebido por seus seguidores em todas as classes."

hitler
Hitler fala baixo com o comandante Mannerheim (dir.) em vagão de trem na Finlândia. A conversa foi gravada sem seu consentimento em 1942. Sua voz, longe dos discursos, é grave e pausada. 

Um livro clássico procura distingui-lo de outros totalitarismos. Ele precisa de violência, de poucas palavras, de anti-intelectualidade, da degradação cultural. Quão fascista será o governo brasileiro atual?

Por Rosane Pavam, em seu blog (também no Outras Palavras)
Nesta semana, circulou por meu facebook um link em que é possível ouvir a voz de Adolf Hitler proferida numa situação particular. Feita a sua revelia no vagão de um trem, em 1942, por um técnico de emissora de rádio da Finlândia, país onde o ditador se encontrava secretamente, a gravação foi interrompida tão logo a SS se deu conta de que era realizada. Possivelmente de modo a evitar hostilidade em relação ao país que desejava aliado, Hitler não exigiu sua destruição, apenas que fosse recolhida. Isto porque o ditador jamais deixava sua voz ser transmitida em situações caseiras, especialmente sem que, para isso, houvesse um ensaio anterior. A gravação, de onze minutos, voltou para a emissora finlandesa apenas em 1957.
Trata-se do único registro conhecido em que Hitler fala baixo, desinteressado de atiçar a multidão. Durante esta conversa com o então comandante militar Carl Gustaf Emil Mannerheim, posteriormente presidente finlandês, Hitler mais falou do que ouviu. Ele precisava convencer seu interlocutor de que estava certo. E aparentemente desejava demonstrar que a Finlândia tinha toda a razão ao se voltar contra a União Soviética mais uma vez, depois de tê-la enfrentado em um avanço sobre seu território entre 1939 e 1940. Hitler admitia a Mannerheim ter errado o cálculo sobre o poderio militar de Stalin. Sentia-se inconformado com o fato de a URSS fabricar tanques em quantidade e velocidade inimagináveis, enquanto os habitantes soviéticos, fazia questão de ressaltar, viviam um cotidiano precário.
Hitler não somente fala baixo e pausadamente durante a gravação (sua voz, ao contrário do que se poderia imaginar, não era aguda). Parecia ponderar com equilíbrio a situação negativa. E aparentava um conhecimento de causa, a enumerar estratégias militares e a explicitar motivos para suas decisões que, ao fim, resultaram em fracasso. A gravação não deixa de ser insidiosa, contudo, a desejar a adesão de seu interlocutor, que na fita, aliás, surge mais exaltado que o próprio Hitler. Admitir um erro de cálculo colocava o nazista em frágil situação confessional, mas também apontava para a cooperação entre os países (não explicitada, contudo, durante a gravação). Hitler se vitimizava, desejoso de vilanizar o inimigo. Entre 1941 e 1944, Mannerheim comandou o exército durante a Segunda Guerra Russo-Finlandesa, contra as pretensões soviéticas em seu território. Embora o país tenha aderido à Alemanha em situações pontuais, não pertenceu ao Eixo durante a Segunda Guerra. Suas Forças Armadas, por exemplo, receberam milhares de judeus de países ocupados.

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Um clássico escrito após estudo revolucionário sobre o colaboracionismo de Vichy
A gravação me levou de volta a um grande livro lançado em 2004, A Anatomia do Fascismo, que recebeu tradução brasileira (de Patricia Zimbres e Paula Zimbres) pela editora Paz e Terra três anos depois. Um livro que, a considerar o estado da política mundial, continua urgente. Seu autor, o cientista político e historiador Robert Paxton, nasceu em 1932 e foi professor da Columbia University de 1969 até sua aposentadoria, em 1997. Hoje professor emérito da universidade, tornou-se célebre ao estudar o colaboracionismo francês em Vichy France: Old Guard and New Order, 1940-1944. Este livro de 1972 desmistificou o entendimento de que os franceses cederam ao nazismo apenas para evitar o conflito, por passividade.
A Anatomia do Fascismo nasceu, diz Paxton, depois de ele constatar que seus alunos desconheciam as origens e as reais características desse movimento, intitulando “fascista” todo governo orientado pelo totalitarismo. Embora o ditador italiano Benito Mussolini se declarasse totalitarista, por exemplo, ele o fazia em um sentido catalisador, explica Paxton. Dizia-se “totalitário” para que pudesse condensar sobre sua pessoa política as aspirações de uma grande parcela social. Mussolini deveria ser tudo, significar tudo. Mas os totalitarismos não redundam necessariamente em fascismo, ele precisa explicar. Se comparados, não necessariamente se equivalem. O exercício de poder por Mussolini difere daquele de Francisco Franco, na Espanha, ou de Juan Domingo Perón, na Argentina. Quando a imprensa americana, por exemplo, intitulou Perón de fascista, em verdade desejou derrubar no americano médio o fascínio que lhe causavam as leis argentinas a favorecer o trabalhador.
O fascismo tem características essenciais. É um movimento, não uma ideologia, esta que prontamente se pode alterar conforme o gosto do ditador no poder. O líder fascista não se obriga a obedecer o próprio programa de governo, aliás nem mesmo tem um: seus eventuais princípios e promessas de campanha (quando a eleição existe) podem ser alterados sem necessidade de mais explicações. O que importa é a submissão do indivíduo aos interesses do Estado (no caso de Hitler, do partido) e à figura de seu condutor máximo. Quem adere ao fascismo não necessariamente pertence a um grupo dominante. O fascismo é um fenômeno horizontal, ao contrário do socialismo, que implica o fortalecimento de uma classe, a trabalhadora. Pobres e ricos são fascistas unidos desde sempre. A potencialidade do movimento depende da ação de uma imprensa manipuladora, rendida aos interesses de grupos conservadores, os verdadeiros beneficiados pela adesão a esse sistema. Os conservadores utilizam os fascistas quando lhes convém e se desapegam deles quando não mais lhes servem. O desejo generalizado que o fascismo manipula é o de “mudança” e engrandecimento nacional, percebido por seus seguidores em todas as classes.

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O historiador americano Robert Paxton
O fascismo existe para atiçar a multidão, motivá-la a uma ação constante e dirigida. É basicamente uma manipulação da consciência de massas em uma sociedade que acolhe o show. Precisa de violência, de poucas palavras, de anti-intelectualidade, da degradação cultural, do não-pensamento para florescer. No início do século XX, a centralidade de poder e o culto pessoal ao governante foram exercidos inovadoramente pelos fascistas, com som e fúria, diante das câmeras do cinema e dos microfones do rádio. Não se tratava mais de expor argumentos à população, mas simplesmente instigá-la à força, em eventos festivos e militares, com ampla cobertura midiática. Os embates parlamentares das ideias burguesas foram substituídos por discursos em praça pública assegurados pelo quebra-quebra das milícias nas ruas. Antes de fortalecer a igualdade, buscou-se a desconfiança em relação ao voto. O sacrifício individual foi exigido para que se construísse uma ideia de grandeza nacional. O fascismo, em suas manifestações iniciais, genuínas, detestava o burguês, o rico acumulador, uma situação transformada conforme o poder se consolidava em torno de um homem só. Mas uma de suas características nunca mudou. O inimigo número um do fascista é genericamente o socialista. E, particularmente, o homossexual, a mulher e as etnias responsabilizadas por uma instabilidade econômica do país.
A manipulação precisa ser corroborada pela justiça e pela polícia, explica Paxton, esta que passa a constituir autoridade inquestionável e duradoura, celebrada por promoções salariais. O fascismo deve ser anticomunista, mas não necessariamente anticlerical, embora o fosse, por exemplo, o programa inicial de Mussolini, que depois exaltou o fervor religioso dos italianos. A Igreja passa a interessar como aliada por conta de seu poderio econômico. Os fascistas, sempre e necessariamente, precisam extrapolar seus limites territoriais. As guerras de conquista são combustíveis para a crença no governo “engrandecido”. O ódio a determinada etnia, como aquele ao judeu, varia a depender do país. Na Itália, explica Paxton, os judeus ricos acreditaram nas promessas de recuperação econômica de Mussolini e o financiaram até o início da guerra, no final dos anos 1930, quando leis raciais passaram a restringi-los.

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Tela do futurista Giacomo Balla falseia a participação de Benito Mussolini na Marcha Sobre Roma, que alçou o movimento ao poder na Itália em 1922

Tudo o que um fascista escreve não deve ser lido, como tão bem explica um filme que Robert Paxton não cita, mas parece fundamental a este entendimento, especialmente na Itália. A Marcha sobre Roma, realizado por Dino Risi em 1962, mostra, por meio da figura de dois desprovidos enganados, interpretados por Ugo Tognazzi e Vittorio Gassman, como o fascismo nasceu anticlerical e antiburguês, a pregar terra para todos e direitos iguais, e como, aos poucos, abandonou suas antigas promessas. É um filme a explicitar o engodo da marcha até Roma pelos fascistas “liderados” por Mussolini (ele não participou da marcha, mas uma iconografia posterior, como a tela concebida pelo futurista Giacomo Balla, coloca-o à frente da manifestação). Em verdade, os camisas-negras que participaram da marcha foram barrados na entrada da cidade. Seu acesso se tornou permitido posteriormente porque o rei decidiu, convencido por seu governo, ceder a quem prometia extinguir à força a ameaça comunista e, de quebra, arrumar a economia.

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Ugo Tognazzi e Vittorio Gassman em A Marcha sobre Roma, de Dino Risi
O nacionalismo fascista nega o socialismo justamente, entre outros, por seu aspecto internacionalista. Conforme a economia declina em países como a Alemanha e a Itália, as ofertas de trabalho diminuem internamente e os camponeses se veem desprotegidos, o fascismo cresce, atribuindo a pequenos grupos migrantes, antes bem-vindos, a responsabilidade pela crise. A promessa do fascismo é ser nacionalista ao extremo, expulsando a “ameaça” externa dentro do país. Um corpo ideológico, uma farsa sobre as origens da nação ditará o que é nacional ou não – o mito da nacionalidade estabelecerá o que é autóctone, portanto legal, e o que é estrangeiro e não se deve tolerar. Na Alemanha fascista, a legalidade era ambígua. O governo desrespeitava as próprias instituições, incentivando o poder paralelo do partido e das milícias, que se tornavam autoridades. Segundo Paxton, existia no país um “Estado dual”, normativo enquanto prerrogativo. O Estado normativo, constituído pelas autoridades legalmente constituídas e pelo serviço público tradicional, disputava o poder com o Estado prerrogativo, formado pelas organizações paralelas ligadas ao partido único. Hitler se serviu dos dois.
O livro de Paxton compreende o fascismo com particularidade. Em seu texto escrito com muita clareza, o Brasil vem citado nas ocasiões ditatoriais até então mais recentes, o Estado Novo e a ditadura. Não há, nos dois casos, situações de guerras de conquistas territoriais que possam estabelecer a chancela fascista, ele conclui. Getúlio Vargas não aderiu ao nazismo como prometia, especialmente durante a Segunda Guerra, embora atacar o comunismo estivesse em seu ideário. E a ditadura brasileira dos anos 1960 tampouco elegeu a mística em torno de um único ditador, genericamente financiada, que era, pelo governo americano. Nos Estados Unidos e na França, houve sempre grupos a favorecer e incentivar o racismo e as milícias de exclusão. Mas, novamente, não se constituíram países onde o fascismo vingou com as tintas a ele aplicadas por Hitler ou Mussolini.
O historiador busca esclarecer as origens e as características do movimento de modo a discriminá-lo de outros autoritarismos. É possível supor que Paxton não ligasse o atual governo golpista inteiramente ao fascismo. Michel Temer tem apoio da oligarquia política, dos setores conservadores, da imprensa, mas carisma não é seu forte. As falas de Temer mais constrangem do que instigam o brasileiro à defesa de suas ações. A justiça e a polícia são suas aliadas e ele enaltece a submissão da própria mulher, como manda o fascismo, mas ainda não empreendeu uma luta por conquistas territoriais. Tampouco soube ser populista na medida exigida, à moda de Mussolini ou Hitler. Extirpa direitos sociais em lugar de os acrescentar seletivamente ou de os maquiar (inicialmente, o nazismo soube arrumar internamente a casa alemã; cuidou muito bem, por exemplo, da saúde de quem considerava cidadão). Talvez, então, segundo o entendimento de Paxton, o homem que ocupa o máximo cargo executivo no Brasil atual fosse visto apenas como um autoritário apoiado em grupos de interesse conservador, com privilégios assegurados pela corrupção, pela justiça e pela polícia violenta. Nem mesmo fascista Temer conseguiria ser?
Volto à gravação da voz de Hitler, feita na Finlândia, porque ela me parece esclarecedora de um ponto ressaltado pelo instigante livro do professor da Columbia University. Hitler não agia conforme o esperado. Sua performance publicamente eletrizante não correspondia a uma grande energia pessoal para conduzir suas políticas. Tudo o que fez, ele o fez gastando pouco. Nem mesmo exercia um pragmatismo motivador à frente da administração de seu país, embora fosse assertivo na propaganda. Paxton descreve um momento durante a guerra em que todo governante, em lugar de usar as verbas recebidas pelo Estado para vitalizar a força produtiva de sua comunidade, sentia que seu dever era aplicá-la em políticas de extermínio, incentivadas largamente pelo ditador. Hitler não quebrava a cabeça para resolver os problemas da economia, embora ela parecesse ajeitada por algum tempo. Enquanto Mussolini mourejava por longas horas em sua mesa de trabalho, Hitler continuava a se permitir o diletantismo indolente e boêmio de seus tempos de estudante de arte.
Narra Paxton: “Quando os auxiliares tentavam atrair sua atenção para assuntos urgentes, Hitler frequentemente mostrava-se inacessível. Passava muito tempo em seu refúgio na Bavária e, mesmo quando em Berlim, negligenciava questões de maior urgência. Submetia seus convidados com monólogos que iam até a meia-noite, acordava ao meio-dia e dedicava suas tardes a paixões pessoais, como fazer, com seu jovem protegido Albert Speer, planos para a reconstrução de sua cidade natal de Linz e do centro de Berlim num estilo monumental compatível com o Reich de Mil Anos. Após fevereiro de 1938, o gabinete deixou de se reunir. Alguns ministros jamais conseguiam ver o Führer. Hans Mommsen chegou ao ponto de escrever que Hitler era um ‘ditador fraco’. Mommsen nunca teve a intenção de negar a natureza ilimitada do mal definido e aleatório exercício pelo poder de Hitler, mas observou que o regime nazista não era organizado segundo princípios racionais de eficiência burocrática, e que sua surpreendente explosão de energia assassina não foi produzida pela diligência de Hitler.”
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Lava Jato e seus pretensos "heróis" vão acabar com o Brasil bem antes da corrupção. Artigo de Alex Solnik


"Os brasileiros querem saber quem é o próximo poderoso a cair em desgraça.
Quem será o próximo queimado vivo.
A Lava Jato não melhorou o país, não melhorou a vida de um só brasileiro. Não encheu a barriga de ninguém. Trouxe o desemprego em massa como maior legado.
E não vai acabar com a corrupção.
Antes, vai acabar com o Brasil." - Alex Solnik



A Lava Jato é uma desgraça que se abateu sobre o país há três anos.
Não por coincidência, três anos de recessão, três anos de ódio, três anos de instabilidade politica, três anos de retrocesso democrático.
Nenhuma "operação" radical que se propõe a destruir alguma coisa gigante trouxe coisas boas nem foi bem sucedida.
A Inquisição quis acabar com o judaísmo. Teve apoio popular porque queimava os hereges em praça pública e sem cobrar ingressos.
Roma quis acabar com os cristãos. Saciava a sede de sangue da massa promovendo grandes torneios em que cristãos desarmados eram obrigados a enfrentar leões famintos.
Milhares de judeus foram queimados, milhares de cristãos foram dilacerados, mas o judaísmo e o cristianismo não acabaram.
A Lava Jato ganhou popularidade propondo acabar com a corrupção, uma tarefa tão inviável quanto acabar com o judaísmo ou o cristianismo.
Mas se tornou popular queimando petistas vivos.
Isso foi no início, quando a ideia era dizimar o PT; agora que os petistas foram queimados a Lava Jato cumpre a tarefa de acabar com o PMDB.
Além de promover espetáculos públicos de destruição de biografias e incitar a população contra um governo eleito, a Lava Jato praticou o maior atentado à constituição já praticado desde a redemocratização, ao grampear e divulgar o grampo de uma presidente da República.
E inaugurou o hábito de prender antes de julgar, a pretexto de "manutenção da ordem pública".
E incentivou a delação, criando a figura do "delator premiado".
Sob o silêncio cúmplice de instâncias superiores, cujo papel é defender a constituição.
Dá impressão que a Lava Jato se transformou no Quarto Poder, pairando no céu da pátria como "uma esperança" semelhante à de encontrar um pote de ouro no fim do arco-iris.
O messianismo sobrevive no Brasil. O Dom Sebastião do momento é Sérgio Moro, que formalmente é um juiz, mas na prática atua mais como inquisidor.
Apesar da voz desagradável, do cabelinho curto e das ideias idem ele tem uma legião de seguidores fanáticos.
Não é possível explicar racionalmente a atração da classe média por essa figura estranha, para dizer o mínimo.
Em três anos de atuação a única coisa que a Lava Jato conseguiu foi mostrar algo que as pessoas bem informadas já sabiam há muito tempo: que a relação entre governos e empresários é espúria; que não se faz negócios com o governo sem pagar pedágio; que não se faz doação eleitoral sem uma boa contrapartida.
O que a Lava Jato conseguiu foi mostrar ao mundo que o Brasil é um país de corruptos.
A Lava Jato conseguiu acabar com um governo em início de mandato, associada a um grupo de políticos golpistas que agora trata de também alijar do poder.
A Lava Jato passou a ser o principal assunto do país, passou a ditar a pauta nacional. Assuntos urgentes, como a recuperação econômica e os juros exorbitantes, que dilapidam a economia popular, passaram ao segundo plano.
Os brasileiros querem saber quem é o próximo poderoso a cair em desgraça.
Quem será o próximo queimado vivo.
A Lava Jato não melhorou o país, não melhorou a vida de um só brasileiro. Não encheu a barriga de ninguém. Trouxe o desemprego em massa como maior legado.
E não vai acabar com a corrupção.
Antes, vai acabar com o Brasil.

Alex Solnik, no 247

Alex Solnik é jornalista. Já atuou em publicações como Jornal da Tarde, Istoé, Senhor, Careta, Interview e Manchete. É autor de treze livros, dentre os quais "Porque não deu certo", "O Cofre do Adhemar", "A guerra do apagão" e "O domador de sonhos"