sábado, 19 de janeiro de 2013

O que fazer para ajudar a iluminar o mundo?



O que posso fazer para deixar esse mundo um pouco menos escuro?

Eu acendo meu fósforo... espero que outros acendam também quando o verem... um dia a gente causa um incêndio renovador

Carlos Antonio Fragoso Guimarães

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013



Cantam ao longe. Anoitece.
Faz frio pensar na vida;
E a Natureza parece
Dizer, em voz comovida,
Que o Homem não a merece. 


Carlos Queirós (1907–1949)

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

O Mandamento que deveria constar no Decálogo e a carta do Cacique Seattle



Diz-se que em 1855, o cacique Seattle, da tribo Suquamish, que habitava na região do Estado de Washington, enviou esta carta ao presidente dos Estados Unidos à época, Francis Pierce, quando o Governo havia dado a entender que pretendia comprar o território ocupado por aqueles índios. Não é assim o pragmatismo materialista moderno? Tudo ter um preço? Faz mais de 150 anos, pois, que esta carta foi enviada por um então considerado "primitivo". Mas o desabafo lúcido do cacique tornou-se famoso por conter uma perene atualidade.

Eis a carta:

    "O grande chefe de Washington mandou dizer que quer comprar a nossa terra. O grande chefe assegurou-nos também da sua amizade e benevolência. Isto é gentil de sua parte, pois sabemos que ele não necessita da nossa amizade. Nós vamos pensar na sua oferta, pois sabemos que se não o fizermos, o homem branco virá com armas e tomará a nossa terra. O grande chefe de Washington pode acreditar no que o chefe Seattle diz com a mesma certeza com que nossos irmãos brancos podem confiar na mudança das estações do ano. Minha palavra é como as estrelas, elas não empalidecem.


Como pode-se comprar ou vender o céu, o calor da terra? Tal idéia é estranha. Nós não somos donos da pureza do ar ou do brilho da água. Como pode então comprá-los de nós? Decidimos apenas sobre as coisas do nosso tempo. Toda esta terra é sagrada para o meu povo. Cada folha reluzente, todas as praias de areia, cada véu de neblina nas florestas escuras, cada clareira e todos os insetos a zumbir são sagrados nas tradições e na crença do meu povo.


    Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um torrão de terra é igual ao outro. Porque ele é um estranho, que vem de noite e rouba da terra tudo quanto necessita. A terra não é sua irmã, nem sua amiga, e depois de exaurí-la ele vai embora. Deixa para trás o túmulo de seu pai sem remorsos. Rouba a terra de seus filhos, nada respeita. Esquece os antepassados e os direitos dos filhos. Sua ganância empobrece a terra e deixa atrás de si os desertos. Suas cidades são um tormento para os olhos do homem vermelho, mas talvez seja assim por ser o homem vermelho um selvagem que nada compreende.


Não se pode encontrar paz nas cidades do homem branco. Nem lugar onde se possa ouvir o desabrochar da folhagem na primavera ou o zunir das asas dos insetos. Talvez por ser um selvagem que nada entende, o barulho das cidades é terrível para os meus ouvidos. E que espécie de vida é aquela em que o homem não pode ouvir a voz do corvo noturno ou a conversa dos sapos no brejo à noite? Um índio prefere o suave sussurro do vento sobre o espelho d'água e o próprio cheiro do vento, purificado pela chuva do meio-dia e com aroma de pinho. O ar é precioso para o homem vermelho, porque todos os seres vivos respiram o mesmo ar, animais, árvores, homens. Não parece que o homem branco se importe com o ar que respira. Como um moribundo, ele é insensível ao mau cheiro.


Se eu me decidir a aceitar, imporei uma condição: o homem branco deve tratar os animais como se fossem seus irmãos. Sou um selvagem e não compreendo que possa ser de outra forma. Vi milhares de bisões apodrecendo nas pradarias abandonados pelo homem branco que os abatia a tiros disparados do trem. Sou um selvagem e não compreendo como um fumegante cavalo de ferro possa ser mais valioso que um bisão, que nós, peles vermelhas matamos apenas para sustentar a nossa própria vida. O que é o homem sem os animais? Se todos os animais acabassem os homens morreriam de solidão espiritual, porque tudo quanto acontece aos animais pode também afetar os homens. Tudo quanto fere a terra, fere também os filhos da terra.


    Os nossos filhos viram os pais humilhados na derrota. Os nossos guerreiros sucumbem sob o peso da vergonha. E depois da derrota passam o tempo em ócio e envenenam seu corpo com alimentos adocicados e bebidas ardentes. Não tem grande importância onde passaremos os nossos últimos dias. Eles não são muitos. Mais algumas horas ou até mesmo alguns invernos e nenhum dos filhos das grandes tribos que viveram nestas terras ou que tem vagueado em pequenos bandos pelos bosques, sobrará para chorar, sobre os túmulos, um povo que um dia foi tão poderoso e cheio de confiança como o nosso.


De uma coisa sabemos, que o homem branco talvez venha a um dia descobrir: o nosso Deus é o mesmo Deus. Julga, talvez, que pode ser dono Dele da mesma maneira como deseja possuir a nossa terra. Mas não pode. Ele é Deus de todos. E quer bem da mesma maneira ao homem vermelho como ao branco. A terra é amada por Ele. Causar dano à terra é demonstrar desprezo pelo Criador. O homem branco também vai desaparecer, talvez mais depressa do que as outras raças. Continua sujando a sua própria cama e há de morrer, uma noite, sufocado nos seus próprios dejetos. Depois de abatido o último bisão e domados todos os cavalos selvagens, quando as matas misteriosas federem à gente, quando as colinas escarpadas se encherem de fios que falam, onde ficarão então os sertões? Terão acabado. E as águias? Terão ido embora. Restará dar adeus à andorinha da torre e à caça; o fim da vida e o começo pela luta pela sobrevivência.


    Talvez compreendêssemos com que sonha o homem branco se soubéssemos quais as esperanças transmite a seus filhos nas longas noites de inverno, quais visões do futuro oferecem para que possam ser formados os desejos do dia de amanhã. Mas nós somos selvagens. Os sonhos do homem branco são ocultos para nós. E por serem ocultos temos que escolher o nosso próprio caminho. Se consentirmos na venda é para garantir as reservas que nos prometeste. Lá talvez possamos viver os nossos últimos dias como desejamos. Depois que o último homem vermelho tiver partido e a sua lembrança não passar da sombra de uma nuvem a pairar acima das pradarias, a alma do meu povo continuará a viver nestas florestas e praias, porque nós as amamos como um recém-nascido ama o bater do coração de sua mãe. Se te vendermos a nossa terra, ama-a como nós a amávamos. Protege-a como nós a protegíamos. Nunca esqueça como era a terra quando dela tomou posse. E com toda a sua força, o seu poder, e todo o seu coração, conserva-a para os seus filhos, e ama-a como Deus nos ama a todos. Uma coisa sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus. Esta terra é querida por Ele. Nem mesmo o homem branco pode evitar o nosso destino comum."


quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Ecologia Profunda, Ecologia Social e Eco-Ética




Texto de Carlos Antonio Fragoso Guimarães, escrito em 1996 

"O novo paradigma (uma constelação de concepções, de valores, de percepções e de práticas compartilhados por uma comunidade e que estabelece uma visão particular da realidade) pode ser chamado de uma visão de mundo holística, que concebe o mundo como um todo integrado, e não como uma coleção de partes dissociadas. Pode também ser denominado visão ecológica, se o termo 'ecológica' for empregado num sentido muito mais amplo e mais profundo que o usual. A percepção ecológica profunda reconhece a interdependência fundamental de todos os fenômenos, e o fato de que, enquanto indivíduos e sociedades, estamos todos encaixados nos processos cíclicos da natureza (e, em última análise, somos dependentes desses processos)."
Fritjof Capra



     Quanto mais voltamos nossa atenção para as grandes dificuldades sociais de nossa época - quando nos detemos e refletimos sobre a grande crise em que vivemos, em todos os âmbitos de ação do ser humano e em todos os lugares -, mais percebemos as falhas de uma visão de mundo compartilhada por grande parte das pessoas influentes, responsáveis pelo comportamento do homem ocidental ( e que, hoje, atinge também o homem oriental ), como empresários, governantes e cientistas, e mais percebemos que estas falhas estão interligadas e não podem ser entendidas de forma isolada, ou linear, como peças autônomas de um relógio.

     O conjunto de problemas que se abatem sobre as pessoas e a natureza estão profundamente enlaçados com uma determinada forma de se compreender o mundo, uma percepção da realidade que é reducionista, simplista e inadequada e que não leva em conta processos sistêmicos (interrelacionados), psicológicos e orgânicos (ecológicos) presentes nos relacionamentos, no padrão de relação, entre pessoas, entre estas e a sociedade - e entre pessoas, sociedades e natureza -, e muito menos valores humanos e existenciais, formadores de referenciais umbilicalmente ligados à qualidade de vida da população mundial, já que fatores ou caracteres fenomenológicos não fazem parte do pensamento linear-racionalista, e muito menos se adequam em gráficos cartesianos.

     A forma tradicional de se compreender ou de se perceber a realidade - enfim, o paradigma subjacente a nossa visão de mundo - vem condicionando o comportamento humano ocidental - e todas as suas instituições - por mais de três séculos. Ela é constituída basicamente da idéia de que todo o universo é uma grande máquina, sem vida ou qualquer sentido além do de um sistema mecânico similar ao das máquinas feitas pelo homem, e, por isso, dentro do fugaz período de tempo a que se resume uma vida humana, é perfeitamente lícito, dentro desta concepção filosófica, que o indivíduo procure extrair o máximo deste sistema morto, a fim de dar um significado ao que, em última análise, e de acordo com esta visão, não parece igualmente ter significado algum: a existência humana. Daí o conjunto de caracteres típicos de nossa sociedade industrial e capitalista: a visão da vida em sociedade como uma luta competitiva pela existência, a ênfase na sobrevivência mais que na vivência e na melhoria real da qualidade de vida a partir do enriquecimento interpessoal, a crença num progresso material ilimitado num contínuo crescimento econômico explorador de recursos naturais limitados, o patriarcalismo com suas várias facetas e formas de dominação, etc.

      O esgotamento, a anti-naturalidade e a destrutibilidade desta "visão ou concepção de mundo" - que ainda é ardorosamente adotada por nossos líderes políticos, empresários, cientístas e instituições - vêm sendo constantemente apontadas, de modo claro, por várias pessoas desde o início do século passado, na crítca ao automatismo e alienação humanas decorrentes da revolução industrial, mas a ideologia do capitalismo, detentora dos meios de comunicação de massa, e as instituições econômicas, que sempre usaram de uma gigantesca máquina de propaganda, acabam por abafar, em parte, este despertar de consciências, e a impor uma ideologia propícia a mascarar e a distorcer a percepção dos fatos e a perpetuar um conjunto de ações favoráveis aos seus interesses o objetivos gananciosos, ou seja, ela constrói toda uma "realidade" ficcional e alienante, embotando o senso crítico das pessoas, a fim de perpetuar a estrutura de poder que lhe é mais aprazível. 

      Mas o nível de agressividade deste paradigma e desta ideologia contra o sistema vivo "Terra" vem sendo tão estupidamente trágica, que já não é mais possível fechar os olhos ante à degradação sócio-ambiental que nosso moderno mundo industrial tem promovido, a não ser que o grau de alienação tenha chegado a tal ponto que embotou até mesmo o sentir a dor que as misérias de nossa civilização tecnicista tem causada à natureza e aos homens. De todos os cantos do planeta vemos os efeitos nocivos da forma materialista (filosofia altamente calculada para fazer parte dos hábitos de consumo da população) e pretensamente racional (esquecendo-se da sabedoria organísmica e intuitiva) de ver o mundo, e os efeitos são:
o crescimento desordenado da população mundial, especialmente entre os países mais pobres (entre os quais se inclui o Brasil da era neoliberal da triste era privatista), que é a resultante direta do crescimento das dificuldades sociais que impedem a educação básica que muito auxiliaria no planejamento familiar, aliás problema que aponta para o descaso que nossos políticos têm em pensar em termos sistêmicos e a longo prazo, e fazem da educação, como um todo, na prática, uma temática supérflua diante do ideal, basicamente industrial, de que o crescimento e riqueza de uma nação são medidos pelo crescimento linear da economia, que se concentra nas mãos de poucos, e de que um alto PIB é sinônimo de bem-estar social. Ora, sendo assim basta que a educação básica inculque os valores e os hábitos de um mundo industrial.


A escassez de recursos, a bizarra e surreal distribuição de renda e a degradação do meio ambiente a fim de saciar a ânsia de crescimento econômico dos empresários, e/ou - por meio da exploração irracional dos recursos humanos e naturais - para o pagamento da dívida externa ou para cobrir o rombo de instituições financeiras incompetentes  parasitárias ou corruptas que combinam-se com uma crescente miséria moral e física de nosso povo, numa alienação política de causar dó, e a uma completa falta de senso crítico e valores humanistas que levam ao colapso das comunidades locais e à violência urbana que se tornou uma característica básica de nossos tempos. E toda a máquina da ideologia de consumo e do crescimento de lurcros se põe, de forma drástica, contra tudo e todos que se levantem para questioná-la. Ainda nos está bem forte na memória o descaso ou a manipulação a ideías de homens como Paulo Freire, Darcy Ribeiro, Betinho, Florestan Fernandes, os teólogos da Teologia da Libertação, os camponeses do MST, etc.

      Existem soluções viáveis para os principais problemas sociais, mas o grande nó da questão está em mudarmos a nossa percepção individualista e egoísta e nossos valores burgueses em prol de um desenvolviemento sustentável, o que atinge em cheio a estrutura do poder e do sistema político-econômico de boa parte dos países, e, ainda mais, no Brasil, onde todos sabemos das desigualdades de todo o tipo entre os que tudo tem e os que nada tem, a grande maioria, e onde recai a maior parte do peso e da hipocrisia dos sistemas institucionais estabelecidos a princípio, ironicamente, para o bem do povo.

      E, de fato, começamos a ver, cada vez mais amplamente em todo o mundo, principalmente na Europa, uma gradual mas inveitável mudança de paradigma na ciência e na sociedade, a partir das pessoas comuns, de estudantes, da base, e não mais de autoridades ou orgulhosos experts diplomados em fragmentos do conhecimento humano. Mas esta nova compreensão ainda está longe de ser sequer pensada pela maioria dos líderes políticos, e, ainda menos, pelos empresários. 

      O reconhecimento de que é necessária uma profunda e radical mudança de percepção e de metas para garantir a nossa sobrevivência e a das demais espécies vivas que compartilham conosco, em estreita correlação, a odisseia terrestre não é feito pelos detentores do poder político e econômico que, aliás, a vêem como uma ameaça à estrutura que os sustenta. Eles sabem que os diferentes problemas estão inter-relacionados  mas se recusam a reconhecer e adotar as chamadas soluções sustentáveis, preferindo fechar os olhos para não ver as conseqüências de suas atividades para as gerações futuras. A partir de um ponto de vista sistêmico, as únicas soluções viáveis são as soluções "sustentáveis", em que uma sociedade satisfaz suas necessidades sem diminuir as perspectivas das gerações futuras, como é comum de se vê nas chamadas "sociedades primitivas", como as indígenas, sem a carga intrometida da civilização branca. Nossa civilização se orgulha de seu racionalismo, mas o racionalismo é usado para justificar comportamentos profundamente irracionais e antiecológicos, num mecanismo justificador de racionalização. Ora, já não seria a hora de nos lembrarmos de que a humanidade, através da história, sempre se orgulhou do mais coração que da razão? Não é daí que vem o termo " fulano é humano", e outros semelhantes?

      Existe um movimento de despertar para o fato de que as ações industriais, técnicas e altamente mecanicistas de nossa sociedade materialista está causando um sério abalo na qualidade de vida dos homens e demais seres vivos que constituem a biosfera. E movimentos como os do Green Peace, os dos vários partidos verdes e a ampla aceitação e debates de assuntos ecológicos, como na Rio-Eco 92, parecem ser "sintomas" de uma gradual mas cada vez mais irreversível consciência de que todos nós fazemos parte de uma teia frágil, linda e muito mais profunda do que nos fazem crer nossas estruturas científicas e comerciais... fazemos parte da teia da vida que consitui um enorme organismo vivo e hoje seriamente ameaçado pela ganância e sede de poder de órgãos econômicos, industriais, políticos, científicos e religiosos, todos voltados para o conquistar e o manter o poder, quer seja material, quer seja ideológico. Mas há uma movimentação interna visível contra tudo isso, afinal somos células e nervos de Gaia, a Terra viva, e esta nova percepção Holísitica, sistêmica ou interrelacional entre todas as coisas que nos cercam, é chamada de Ecologia Profunda.

      O filósofo Arne Naess caracterizou da seguinte forma a Ecologia Profunda: "A essência da ecologia profunda consiste em fomular questões mais profundas", e, segundo Fritjof Capra, é essa também a essência de uma mudança de paradigma: "Precisamos estar preparados para questionar cada aspecto isolado do velho paradigma. Eventualmente, não precisaremos nos desfazer de tudo, mas antes de sabermos isso, devemos estar dispostos a questionar tudo. Portanto, a Ecologia Profunda faz perguntas profundas a respeito dos próprios fundamentos da nossa visão de mundo e do nosso modo de vida modernos, científicos, industriais, orientados para o crescimento e materialistas. Ela questiona todo esse paradigma com base numa perspectiva ecológica: a partir da perspectiva de nossos relacionamentos uns com os outros, com as gerações futuras e com a teia da vida da qual somos parte" (Capra, 1997, página 26).


Ecologia Social


      Ao lado da Psicologia Profunda, temos ainda uma escola filosófica que tem por base uma percepção eco-sistêmica da dinâmica social, ou uma percepção de relações entre partes. Ela complementa a ecologia ao mostrar os padrões culturais de organização social que produziram a atual super-crise. É esse o foco da ecologia social, que é o nome genérico que podemos dar às várias disciplinas sociais que estudam a natureza antiecológica de muitas de nossas estruturas instituicionais.

      Segundo Riane Eisler, as várias escolas de Ecologia Social reconhecem a estrutura mecanicista e alienante, portanto profundamente antiecológica, de nossas instituições econômicas e sociais, que se modelam de acordo com um "sistema de dominação", como podemos ver, claramente, no capitalismo que se utilizou do mesmo processo de repressão à liberdade que acusava nos chamados países socialistas, especialmente nas ditaduras da América Latina. Sendo assim, as chamadas escolas marxistas nos permitem analisar diferentes padrões de dominação social impostas à cultura e à sociedade sob a forma de ideologia, muitíssimo vinculada através dos meios de comunicação, notadamente, nos dias de hoje, pela televisão, que é um veículo de comunicação de massa, associada à interesses políticos e comerciais pertecentes à classe econômica dominadora.

      Além da Ecologia Social, podemos apontar também o ecofeminismo como uma escola especial de ecologia social voltada para a dinâmica de dominação social dentro do contexto do patriarcado, que permitiu o desenvolvimento de formas diversas de exploração: das mulheres pelos homens, da dominação hierárquica, capitalista, militarista e industrial, e em desenvolvimentos de teorias mecanicistas e controlistas do homem, como o taylorismo em administração, o behaviorismo em Psicologia, etc. Em particular, os ecofeministas mostram que a exploração extrema da natrueza tem andado de mãos dadas com a das mulheres, que têm sido identificadas com a natureza através dos séculos. Não nos esqueçamos que o pai do empirismo, Francis Bacon, postulava que, tal como se fazia com as "bruxas" de sua época, "os segredos das natureza teriam de ser arrancados sob tortura", pois ela se apresenta "como uma mulher caprichosa"...

Ética


     Tudo o que diz respeito à percepção humana da realidade e, conseqüentemente, os valores humanos que estão enlaçados com esta percepção é de fundamental importância para a Ecologia Profunda. Já não podemos acreditar que nossas teorias e pesquisas científicas são isentas de valores, pois a própria escolha de como e o que devemos estudar e levar em consideração já é uma ação que se alinha com uma determinada forma ou maneira de fazer ciência, subjetivamente aceita como a mais "verdadeira". Portanto, as chamadas abordagens dominantes (por exempo, a Psicanálise, em Psicologia), tendem a impor uma forma de visão de homem que é estreitamente ligada a um apradigma já claramente nocivo à humanidade.

      Segundo Capra, como oposição perceptual necessária a tudo isso, a ecologia profunda centraliza-se em valores holísticos e, mais propriamente, ecocêntricas (centralizados na Terra como um sistema vivo, Gaia). Nesta acepção, todos os seres vivos são membros de comunidades ecológicas ligadas umas às outras numa rede de interdependências, formando uma rede de vida dinâmica e auto-consistente. Aliás, com estas características, a própria rede parece ser um organismo. Neste sentido, o homem não é melhor ou pior que qualquer outra espécie, mas um componente fundamental desta rede, criado por ela, mantido por ela, influenciado por ela e tendo o poder de influenciá-la (tanto positiva quanto negativamente) tanto quanto é influenciado por ela. Aliás, somos meros nódulos da rede da vida, juntamente com todas as outras espécies vivas, tendo a única diferença de sermos complexamente racionais, o que nos faz quase sempre nos identificarmos apenas com esta qualidade, esquecendo-nos de que o organismo, como um todo, possui uma racionalidade ainda mais sábia que a racionalidade intelectual. Assim, quando pisamos em algo pontudo, não ficamos a "analisar" se somos agredidos por um espinho, um prego ou uma agulha, nem nas orígens deste incômodo, como o objeto foi parar ali ou quais as suas conseqüências, mas, "organísmicamente", sabiamente, retiramos imediatamente o pé, graças a uma sabedoria instintiva mais profunda e que é comum a todos os seres vivos, isso sem falar no sentimento humano.... Como disse Pascal, O coração tem razões que a razão desconhece"...

      Quando esta percepção ecológica e holística mais profunda torna-se parte de nossa vivênvia e consciência cotidiana, emerge um sistema de relacionamento transpessoal mais maduro, uma ética radicalmente nova.

      Esta ética de pertinência e de co-responsabilidade vivencial é extremanete necessária nos dias de hoje, uma vez que a maior parte do que fazemos, quer seja tecnicamente ou não, especialmente entre os sacerdotes do saber, os cientistas, não parece promover a vida e nem preservá-la, mas sim de a coisificar, banalizar e destruir cada vez mais a vida sob a égida de um paradigma mecanicista, sob o pretexteo de crescimento econômico travestido de pseudo-valores antropocêntricos (como se o homem fosse um ser à parte da natureza complexa que o sustenta). Os cientistas mecanicistas, que crêem num universo máquina, projetam sistemas de armamentos com a capacidade de destruir inúmeras vezes toda a vida do planeta, desenvolvem novos produtos químicos que contaminam o meio ambiente global sem nenhum respeito ético pela vida, ou desenvolvem mutações em microorganismos vivos que podem ser soltos por ai sem muito pensarem nas conseqüências de seu mister, isso sem falar de psicólogos que torturam animais e acabam por acreditar que o homem pode ser manipulado da mesma forma, além do mecanicismo econômico, que descarta qualquer possibilidade de se incluir valores e/ou qualidade de vida em seus gráficos de oferta e procura.

      Como nos diz o físico Fritjof Capra e outros estudiosos da filosofia da Ciência, alienadamente "Não reconhecemos que os valores Não são periféricos à ciência e nem à tecnologia, mas consituem a sua própria força motriz". Culturalmente, acreditamos que os valores podem ser seprados dos fatos (objetividade), e assim pensamos que os fatos científicos são independentes daquilos que fazemos e, portanto, são isentos de valores. "Na verdade os fatos científicos emergem de toda uma constelação de percepções, valores e ações humanas - em uma palavra, emergem de um paradigma - dos quais não podem ser separados. (...). Portanto os cientístas são responsáveis por suas pesquisas não apenas intelectualmente, mas moralmente. Dentro do contexto da Ecologia Profunda, a visão segundo a qual esses valores são inerentes a toda a natureza viva está alicerçada na experiência profunda, ecológica ou espiritual, de que a natureza e o eu são um só. Essa expansão do eu até a identificação com a natureza é a instrução básica da ecologia profunda(...)" (Capra, 1997, p. 29).

      Esta percepção de que pertencemos, ou mellhor, de que somos parte de um todo sistêmico - e que é encontrada intuitivamente nas crianças, nos índios, em algumas comunidades orientais, nas tradições mais antigas dos povos da europa pré-cristã e em outras comunidades ditas precoceituosamente de primitivas, sentidas por poetas, biólogos e artistas de todos os tempos - acaba por gerar um comportamente ético-vivencial que advém de dentro da própria alma do ser humano, ao contrário de uma ética aceita intelectualmente, como, por exemplo, na teoria da Psicanálise como uma ética, que é cara aos lacanianos, o que não deixa de ser meio absurdo por ser esta teoria (a Psicanálise) reconhecidamente pessimista em relação ao homem (o destino do homem é ser um neurótico ou um normal mais ou menos infeliz dentro de uma sociedade que não lhe permite viver suas pulsões de modo satisfatório). Já a percepção de que somos muito mais do que nos permite crer os limites de nossa pele muda totalmente a situação, como nas fala Arne Naess:

      O cuidado flui naturalmente se o "eu" é ampliado ou aprofundado de modo que a proteção da Natureza livre seja SENTIDA e CONCEBIDA como PROTEÇÃO DE NÓS MESMOS ... Assim como não precisamos de nenhuma moralidade vinda de um nível intelectual para nos fazermos respirar do mesmo modo se o seu "eu", no sentido mais amplo desta palavra, abraça um outro ser, você não precisa de advertências morais ou lineamente intelectuais para demonstrar cuidado e afeição... você o faz por si mesmo, sem sentir nenhuma pressão moral para fazê-lo... Se a realidade é como é experimentada pelo eu ecológico, nosso comportamento, de maneira natural e bela, segue espontaneamente as normas da ética ambientalista".

      E, mais uma vez, como nos esclarece Capra, "o que isso implica não é o fato de que o vínculo entre uma percepção ecológica do mundo e o comportamente correspondente não é uma conexão lógica, mas psicológica. A lógica não nos persuade de que deveríamos viver respeitando certas normas, uma vez que somos uma parte integral da teia da vida. No entanto, se temos esta percepção, ou a experiência, ecológica profunda de sermos parte importante da teia da vida, então estaremos (em oposição a deveríamos estar) inclinados a cuidar de toda a natureza viva." Poderíamos tomar, como modelo paradigmático desta Viência profunda de pertencer à natureza, a vida de um dos maiores poetas e místicos da humanidade, São Francisco de Assis.

      O vínculo experiencial-fenomenológico entre Ecologia Profunda e Psicologia Profunda ( esta no sentido junguiano, rogeriano e/ou transpessoal do termo ), que se faz presente na concepção do eu ecológico, está sendo explorado por vários autores, entre eles o filósofo Warwick Fox, que cunhou o termo "ecologia transpessoal", ou o historiador Theodore Roszak, que se utiliza do termo "ecopsicologia", que expressam a conexão profunda entre a psicologia não-freudiana e a ecologia, que antes eram consideradas áreas completamente separadas.

Sendo assim, como nos diz Capra (ob. cit), a ênfase da mundança de paradigma, hoje, nos aponta para a saída de uma ênfase nas ciências que manipulavam o mundo como uma máquinha morta, como a física clássica, para as ciências da vida, como a biologia, a ecologia e a psicologia.

Bibliografia Sugerida

Capra, Fritjof. A Teia da Vida, Editora Cultrix, São Paulo, 1997.
Capra, Fritjof. O Ponto de Mutação, Editora Cultrix, São Paulo, 1986.

O labirinto interior


“Perdi-me dentro de mim porque eu era labirinto 

e hoje, quando me sinto, É com saudades de mim“

Mário de Sá Carneiro

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

A Economia Mecanicista: Um Questionamento


O Mecanicismo Econômico

por

Carlos Antonio Fragoso Guimarães


A Economia como uma construção cientificista



Charlie Chaplin em "Tempos Modernos" (1936)


"Vocês que fazem parte desta massa
Que passa nos projetos do futuro
É duro tanto ter de caminhar
E dar muito mais do que receber
E ter que demonstrar sua coragem
À margem do que possa parecer
E ver que toda essa engrenagem
Já sente a ferrugem lhe comer."


Zé Ramalho, Admirável Gado Novo




  Com o grande sucesso do pararadigma mecanicista das ciências físicas no século XVIII, financiadas pela florescente burguesia que via e buscava nos desenvolvimentos técnicos um meio de ampliação dos lucros, todas as demais disciplinas científicas - ou que buscavam ser reconhecidas como tais -, procuravam imitar desesperadamente os métodos empíricos próprios da Física newtoniana para, a partir daí, se mostrarem como válidas e representativas de fenômenos que seguiam um comportamento "natural" e "previsível", possibilitando, pelo conhecimento racional e metódico, o seu "controle". 

  Na verdade, o que se procurava estabelecer era o prestígio destas ciências (entre as quais se incluem a Medicina, a Economia e, mais tarde, a Psicologia) frente a uma humanidade que estava fascinada pelo modelo newtoniano de universo, que parecia explicar de forma definitiva o funcionamento da natureza, e, então, quanto mais os cientistas conseguissem emular os métodos da física e fossem capazes de usar conceitos muito parecidos com os conceitos desta ciência, mais elevado e mais aureolada com a presunção de verdade seriam estas ciências aos olhos da comunidade acadêmica e científica. A imposição de modelos e tratamentos matemáticos a estas ciências pareciam dar, ao mesmo tempo, uma rigorosidade racional e um ar de sofisticação numa linguagem só acessível a "iniciados" no que acreditava ser as altas esferas do pensamento considerado "verdadeiro".


  Segundo o físico Fritjof Capra, esta tendência de usar a Física como modelo para teorias e conceitos científicos tornou-se uma obsessão com uma série de desvantagens em muitas áreas, mas com consequências por demais graves nas chamadas ciências sociais (Economia, Ciências Políticas, Sociologia, etc.). Estas ciências não têm o mesmo status que, por exemplo, a Física ou a Medicina, mas os seus teóricos tentam a todo custo adquirir a respeitabilidade destas adotando o método cartesiano e os métodos tido como "objetivos", emprestados da física newtoniana. Contudo, o pior problema destas, em especial da economia, está em tentarem agradar quem financia suas áreas criando explicações menos científicas e mais cientificistas (com aspecto científico, mas na verdade prenhe de ideologias e comprometimentos conceituais em prol de uma determinada visão de realidade benéfica a estes patrocinadores), ou seja, se criam mecanismos para encobrir uma mentira que, na prática, é prejudicial à maioria das pessoas e do meio-ambiente, como ocorre atualmente na Europa com a crise financeira do neoliberalismo devastador.

  Todos conhecemos como os gráficos baseados em coordenadas cartesianas, representativos da oferta e da procura são tão caros aos economistas, juntamente com a utopia de um crescimento econômico continuo e perpétuo, embora não possamos dizer o mesmo das noções de valores humanos ou recursos naturais, nem do impacto destes estudos no bem-estar das pessoas. Entretanto, basta olhar para a situação do mundo em que vivemos para "sacar" que o método de Descartes e o mundo de Newton quando aplicados a estas ciências, como estrutura básica, são inadequados para o estudo dos fenômenos que eles tentam descrever, deixando de fora - como resíduo - talvez o que seja o mais importante - por exemplo, os valores de uma sociedade que inspiram seu comportamento e visão de mundo. 

  É impossível que ciências sociais não leve em conta valores, simplesmente porque são os valores, a afetividade, os sonhos que levam o homem a agir, a planejar, determinando consciente ou inconscientemente as estratégias de comportamento individual e social, mas é exatamente isso o que ocorre com a economia, instrumento muito útil na justificativa das estratégias e misérias do capitalismo. Nessa ciência esquece-se que a economia é um dos aspectos de uma realidade muito mais ampla que compõe um sistema ecológico e social: um sistema vivo, inter-determinado, composto de seres humanos em contínua interação e transformação, de recursos naturais (muitos dos quais não renováveis) e de seres vivos de toda espécie e complexidade. Na verdade, a versão dominante da Economia atual, embebida nos "valores" do neoliberalismo, é a grande responsável por uma construção reducionista de uma perspectiva de mundo em que desaparecem por completo preocupações com elementos fundamentalmente importantes para o bem-estar humano, como ética, solidariedade, fraternidade, respeito, gratuidade e realização pessoal e coletiva.

  O sucesso tecnológico, em especial o desenvolvimento extraordinário dos equipamentos mecênicos e eletrônicos após a Segunda Guerra Mundial, inteligentemente utilizados para engradecer um modelo econômico social, levou quase que impreterivelmente a maior parte das pessoas a acreditar que o capitalismo seria a única solução viável para o bem-estar mundial, o que ficou mais sedimentado após a derrocada do "socialismo" autoritário da extinta União Soviética, em 1991. 


  Com isso, muita gente embebida no modelo capitalista advogou que a História de lutas de ideias tinha acabado ou que tinha se reduzido a mecanismos econômicos que destacaram as vantagens da acumulação e riquezas individuais, dando a impressão de um determinismo pragmático onde o vazio humano, de afetos, de sentido, de utopias, poderia ser preenchido pela compra e posse de um sem número de quinquilharias eletrônicas (sempre superáveis e descartáveis. Dai o crescimento do poder e dos interesses de empresas e corporações a suplantarem mesmo a preocupação social com o bem-estar de todos, numa nova etapa da modernidade, o Neoliberalismo transnacional, que, por uma parte, deslumbra e anestesia por suas novidades tecnológicas e tecnocráticas, encobrindo a sua agressividade, destrutividade, que se descompromete com a solidariedade e a compaixão. Para justificar esta "realidade", invista-se em modelos econômicos matemáticos adequados a eliminar qualquer traço de humanismo efetivo, impondo-se, em seu lugar, uma espécie de darwinismo corrompido e pragmático.

    Nas palavras do economista Ladislau Dowbor:

 Hipnotizados pelos espelhinhos tecnológicos, percebemos crescentemente o capitalismo como gerador de escassez: enquanto aumenta o volume de brinquedos tecnológicos nas lojas, escasseiam o rio limpo para nadar ou pescar, o quintal com as suas árvores, o ar limpo, água limpa, a rua para brincar ou passear; a fruta comida sem medo de química, o tempo disponível, os espaços de socialização informal. O capitalismo tem necessidade de substituir felicidades gratuiras poe felicidades vendidas e compradas (DOWBOR, Prefácio ao livro "À Sombra desta Mangueira", de Paulo Freire, Editora Olho D'Água, 2010).


    A extrema fragmentação da economia não é criticada de agora, mas os economistas  mais lúcidos foram todos forçados a colocarem-se à margem da "ciência" econômica acadêmica, evitando-se, assim, que os fenômenos econômicos fossem estudados em sua realidade social e ecossistêmica, o que teria de levar a economia a entrar em contato com disciplinas como a Ecologia, a Psicologia, a História e a Filosofia, não muito dadas a "conversa" matemática tão cara à economia. Desse modo, notáveis pensadores econômicos como John Kenneth Galbrath e Robert Heilbroner são considerados sociólogos e Kennet Bouding como filósofo. Karl Marx, ao contrário, recusava-se terminantemente a ser chamado de economista por saber que os economistas na verdade - em sua maioria - são notáveis e criativos apologistas da ordem capitalista. Ele se considerava um crítico social; aliás, o termo "socialista" designava, primariamente, todos os que não aceitavam a visão alienante dos economistas capitalistas.


  Um outro aspecto da realidade factual dos fenômenos econômicos é a negligência da ordem dinâmica da economia. Em sua natureza básica e complexa, os fenômenos econômicos são de espécie distinta daqueles que são objeto de estudo das ciências naturais, e por isso, seguem uma lógica de comportamento diverso. Como expõe Capra, a física clássica (Mecânica) aplica-se a uma gama bem definida e imutável de fenômenos naturais, mas a evolução, maturação e declínio de padrões econômicos tendem a ocorrer num ritmo muito rápido. Basta lembarmos das várias facetas de crise e transformação da economia mundial só neste século. Os sistemas econômicos, por serem sistemas complexos inseridos em sistemas ecológicos e sociais, estão em contínua transformação. É necessário, pois, uma estrutura conceitual multidisciplinar para que possamos compreender as continuamente novas situações.


  Devemos ter claro em nossa mente - e sempre vamos repetir isso - que a evolução de uma sociedade - implicando também na evolução de seu sistema econômico - ocorre atreleada a mundanças em seu sistemas de valores, o que implica na mudança de sua visão, percepção e compreensão de mundo. Todo o saber e a cultura desta sociedade é, pois, enxarcada na concepção de mundo - ou paradgima - que é típica de sua época. Uma vez expresso e aceito (conscientemente ou não) um conjunto de valores e metas, estes estruturam as percepções (só interessam aquilo que diga respeito aos valores e metas determinados), guiando a sociedade por um caminho definido. Hoje, vivemos sob a égida da cultura Norte-Americana, made for export. À medida que o sistema de valores muda - frequentemente em resposta à crises e desafios -, surgem novos padrões e paradigmas que questionam a visão anterior de mundo.


  O estudo dos valores e da percepção de mundo é, pois, de estrema importância para todas as ciências, principalmente as ciências sociais. "Os cientistas sociais que consideram 'não-científica' a questão dos valores e pensam que a estão evitando estão simplesmente tentando o impossível. Qualquer análise 'isenta de valores' dos fenomenos sociais baseia-se no pressuposto tácito (implícito) de um sistema de valores ( no caso, no valor "da objetividade" da ciência econômica ) que está implícito na seleção e interpretação de dados. Ao evitarem, portanto, a questão dos valores, os cientistas socias não estão sendo científicos, porque negligenciam enunciar expliciatamente os pressupsotos inerentes a suas teorias. Eles são vulneráveis à crítica marxista de que 'todas as ciências sociais são ideologias disfarçadas' " (Fritjof Capra, p. 182).


  A economia é definida como uma disciplina voltada para o estudo da produção, distribuição e consumo de riquezas. Riquezas, afinal, para quem? Ora, vemos que o capital que poderia ser empregado nos meios de produção, aumentando a oferta de empregos, são, na verdade, egoisticamente aplicados na especulação das bolsas. 

  Apesar dos riscos, os lucros podem ser fenomenais e mais rápidos do que se fossem aplicados na produção, com os encargos sociais decorrentes, considerados "despesas", e, portanto, não lucrativas. Assim, de todas as ciências sociais, a economia é a que mais claramente depende de valores subjetivos. Seus modelos e teorias se baseiam numa concepção de natureza mecanicista, onde o fator quantidade se destaca, e o qualidade nem mesmo é falada. No nosso atual sistema "materialista" de valores, o "padrão de vida" (que seria um pressuposto de valor qualitativo) é medido pelo montante de consumo anual. Ironicamente, em nosso Brasil do Real, um ex-professor de sociologia que, às custas de uma inteligente estratégia de sedução coseguiu se eleger presidente, e que com ares de grande estadista agora só visa vaidosamente manter o poder e à manutenção da própria imagem, usa cinicamente o exemplo de que os "pobres podem, agora, comprar mais dentaduras" como sinônimo de que a quantidade vale pela qualidade, num país onde a saúde pública é cada vez mais sucateada - se não o fosse, haveria menos desdentandos - ou está nas mãos dos carteis dos planos de saúde (geridos, em sua maioria, por médicos-empresários capitalistas), pouco ou nada se fazendo em prol de uma medicina-preventiva e onde a educação, real riqueza de um povo, é destruida e manipulada pelo detentores do poder. Deveríamos começar a ser mais sensíveis a uma economia do "modo de vida correto", nos quais a finalidade seria a de realizar o máximo de bem-estar humano com um padrão ótimo (no sentido de equilíbrio entre as necessidades individuais e coletivas) de consumo. Um padrão que seguisse a máxima budista de "caminho do meio". Claro que isso implica em toda uma reedcação, a começar pelos valores consumistas vinculados pela mídia, e uma volta ao estudo da ética, principalmente nas escolas e universidades.


  A obsessão em dotar a economia de valor científico ainda que maquiando muito mal os valores mecanicistas implícitos em si mesma levou os economsitas a aderirem de modo doentio a um linguajar técnico. Essta tendência é muito forte nos EUA e nos países que rezam por sua cartilha e que estabelece que todos os problemas possuem soluções técnicas claramente mensuráveis. Essa ênfase na quantificação parece conferir uma aparência de ciência exata à economia. Mas, ao mesmo tempo, ela exclui distinções qualitativas inerentes às dimensões ecológicas, sociais e psicológicas das pessoas que estão submetidas às conseqüências da visão mecanicista dos economistas; eles "menosprezam completamente a pesquisa psicológica sobre o comportamento das pessoas ao adquirir renda - a não ser se for para incrementar o consumo -, porque os resultados de tais pesquisas não podem ser integrados nas análises quantitativas correntes" (Capra, p. 183).


  A abordagem isolada dos economistas (eles negligenciam frequentemente as outras ciências sociais) e sua preferência por modelos matemáticos abstratos e seu pouco caso pela evolução dinâmica da economia resultaram em que os técnicos como os antigos escolásticos medievais, se fecham em castelos e monatérios - que podem ser universidades, departamentos ou repartições - e ficam sem querer observar a enorme defasagem entre a teoria e a prática, pois, afinal, como pode uma estrutura teórica tão bem fundamentada na matemática e no modelo cartesiano apresentar falhas? Segundo oThe Washington Post, "ambiciosos economistas elaboram elegantes soluções matemáticas para problemas teóricos com escassa ou nenhuma importância para as questões públicas" (cit. in Capra, 1986, p. 184). Nem precisamos falar no desemprego avassalador causado por uma globalização capitalista que visa única e exclusivamente ao lucro de quem já tem demais, e que é saudada com fogos pelos economistas ligados a este sistema, em detrimento da população trabalhadora do grande maioria dos países, inclusive do chamado Primeiro Mundo.


  Como nos fala com muita sabedoria os professores Antônio Houaiss e Roberto Amaral, precisamos questionar o aparente triunfo final de tudo aquilo que contraria a história (e daí se dizer do fim da história): a vitória tão falada do capitalismo, a partir da destruição do mundo socialista representado pelo comunismo do leste europeu; mas a questão parece ser: não será a vitória de uma ideologia, de uma visão de mundo calculadamente construída, que nega uma realidade gritante que a contradiz? Será que a grande miséria que vem ao lastro da globalização é uma irrealidade? Não será que um dos pontos característicos principais desta ideologia não é o de negar e maquiar uma realidade que é o oposto do que nos querem fazer acreditar, ou, em outras palavras, esta ideologia não constrói a sua "realidade" numa forma de prevalecer o discurso sobre os fatos? Sendo estas proposições válidas, estamos falando então de alienação, o instrumento mais efetivo de dominação, por implicar o controle do discurso e, consequentemente  de modelação de um paradigma que nos impõe uma forma de ver, perceber, gostar, e sentir a si mesmo, aos outros e ao mundo. O mundo, suas representações, seus símbolos, o espelho de nossa auto-compreensão, submetidos a um conjunto de idéias que nos querem impor como sendo a própria realidade... Por que o bem-estar tem de estar vinculado ao consumo e o fator qualitativo ser sinônimo de quantidade? Acho que temos, pelo menos, o direito de pensar o porquê de o mundo estar, agora, mais dividido nos fatos do que na teoria como nunca antes o foi... Pensar é, ao menos, possível, melhorar, uma necessidade.


"(...) O que os economistas precisam fazer com a máxima urgência é reavaliar francamente a sua base conceitual, cujas vaiáveis e conceitos foram criados há centenas de anos e que já foram superados por mudanças sociais, e recriar seus modelos e teorias fundamentais de conformidade com essa reavaliação. A atual crise econômica só será superada se os economistas estiverem dispostos a participar da mudança de paradigma que está ocorrendo hoje em todos os campos. (...) A substituição do paradigma cartesiano por uma visão holística e ecológica não tornará as novas abordagens menos científicas, mas, pelo contrário, as fará mais compatíveis com as novas conquistas das ciências sociais".

Fritjof Capra

Seja como for, o seguinte clipe, Society, resume bem o que foi dito acima