sábado, 31 de maio de 2014

A ridícula tentativa da Gobo (e de Veja) de vitimizar Joaquim Barbosa

Segue artigo de Miguel do Rosário, em seu blog O Cafezinho:







Adicionar legenda
Quando um paulista divulgou suas ameaças a petistas e a Dilma, a mídia não protestou. Ao contrário, deu espaço nobre ao sujeito no jornal com maior tiragem no país, e o apresentou em programa da TV Cultura.
A organização “anticorrupção” OCC, por sua vez, iniciou campanha pedindo financiamento de R$ 200 mil para “cada petista morto”. Nada na mídia.
Teve até um Policial Federal treinando tiro num alvo com a figura da presidenta. Nada na mídia.
Paro por aqui. O número de ameaças e insultos ao campo da esquerda na internet é incomensurável.
E agora vem o Globo dizer que Barbosa pediu pra sair por causa de ameaças de dois barnabezinhos do interior?
Isso é história para vitimizar Barbosa!
Quanto aos apupos que Barbosa levou na saída de um restaurante, o Globo é engraçado. Por anos, ele pintou Barbosa como recebedor de aplausos em estabelecimentos do Leblon. Na primeira vez que é vaiado, ele abandona o cargo?
Quando Dilma é vaiada, a imprensa quase publica uma oração de agradecimento a nossa Senhora na primeira página. Quando é a vez de Barbosa isso é motivo para abandono do cargo?
Ora, isso não é vitimismo. É covardia!
Outro dia conheci um blogueiro do Maranhão que sofre ameaças de morte quase toda semana. Contou-me sorrindo, com uma bravura que me fez sentir um medroso. Um simples blogueiro! E agora Barbosa, com seus seguranças, com sua proteção midiática, vem posar de vítima?
Agora, o mais ridículo é tratar as críticas, democráticas, necessárias, que Barbosa sofre nas redes sociais, como “agressão”. Quer dizer que as críticas a Dilma, a Lula, ao PT, são manifestações democráticas do povo e da classe média, e as críticas a Barbosa são “agressões”?
Entre numa página do G1 e vejam o que falam do PT. É um chorume violentíssimo, asqueroso, repleto de preconceito, truculência e fascismo explícito.
Tudo relacionado a Barbosa é cercado de fascismo midiático. Ele reage com truculência a qualquer manifestação contrária a sua opinião, e os órgãos de mídia que fazem a sua blindagem pintam as críticas de maneira censora e fascista. Se estivéssemos na ditadura, o Globo sugeriria que os críticos de Barbosa fossem presos.
O Globo esqueceu de dizer que Barbosa é “agredido” por todas as pessoas esclarecidas no Brasil, que não estejam acometidas de hidrofobia antipovo e anti-PT. Aliás, até mesmo alguns anti-petistas raivosos, mas com alguma consciência de Direito, andaram “agredindo” Barbosa, como o Ives Gandra, que insinuou que Joaquim Barbosa era um nazista.
Não venham com histórias, globais. O seu Batman está saindo do STF porque sofreu uma derrota política merecida. Foi desmascarado. Ele prevaricou: escondeu provas dos réus e da opinião pública. É o inquérito 2474!
Confiram aqui esse post, onde trago o vídeo que pode ter sido o verdadeiro motivo da queda de Barbosa.
Barbosa mente descaradamente para os outros ministros, ao afirmar que o Inquérito 2474 não tinha “nada a ver com o mensalão”. Mentira deslavada! O 2474 era justamente o aprofundamento das investigações em torno da origem do dinheiro do valerioduto. Mas apontava caminhos diferentes: dava destaque ao Laudo 2828, que inocenta Pizzolato; trazia provas de que Valério recebeu dinheiro de Daniel Dantas; e exibe notas fiscais onde a Globo aparece como principal beneficiária do Visanet.
Isso aí, sim, pode ser a explicação para derrubar Barbosa. Não “ameaças”!
Vão enganar seus coxinhas psicóticos, seus palermas de saguão de aeroporto, neofascistas úteis que batem palmas para o Batman achando que ele combateu a corrupção, quando apenas serviu a interesses obscuros e ajudou a abafar grandes escândalos. Enquanto a mídia enganava o Brasil com a história do mensalão, Demóstenes Torres articulava seus esquemas com a revista Veja e a família Marinho saía da crise e agregava, misteriosamente, algumas dezenas de bilhões a sua fortuna. E tudo isso enquanto Merval Pereira dizia que a prisão de figuras como Genoíno “lavava a alma do Brasil” porque mostrava a Justiça prendendo “ricos e poderosos”.
Chamar Genoíno de rico e poderoso foi a piada mais negra do século. Os únicos “ricos” no mensalão não eram poderosos, e o único que um dia foi poderoso, com um poder democrático e provisório, concedido pelo povo, como Dirceu, não era rico.
Enfim, os leitores já identificaram o último golpe de Barbosa e da mídia. Ele sai do STF, com essa história de “ameaça”, entra o Lewandowski, e a imprensa agora vai bater o tambor com a “libertação de mensaleiros”, tentando açular os zumbis coxinhas reaças a sair às ruas quebrando tudo.
A guerra não acabou, eu sei. Uma batalha de cada vez.


quarta-feira, 28 de maio de 2014

Redes Sociais e um mundo tecnologicamente embalado não implica humano contato ou maior companhia, muito menos maior possibilidade de afetividade sadia




Em uma época onde as pessoas perdem suas raizes, assumem papeis estereotipados e se atomiza o contato, as chamadas redes sociais são apenas sociais na aparência. Veja-se o excelente video abaixo, reflita, discuta e compartilhe... A que ponto chegamos no processo de "coisificação", desencantamento e artificialização do mundo, tornado líquido, tornado eletrônico, tornado descartável...


segunda-feira, 12 de maio de 2014

Leonardo Boff sobre as novas relações criativas entre homens e mulheres


Homens e mulheres: novas relações criativas


texto de Leonardo Boff




  Fonte: Leonardo Boff




  A criatividade é a dinâmica do próprio universo. Seu estado natural não é a estabilidade mas a mutação criativa. Tudo é fruto da criatividade natural ou humana. A Terra é fruto de uma Energia criadora, misteriosa e carregada de propósito que atua já há 13,7 bilhões de anos. Um dia, um peixe primitivo, “decidiu”, num ato criador, deixar a água e explorar a terra firme. Desse ato criativo, vieram os anfíbios, em seguida os répteis, depois os dinossauros, as aves, os mamíferos e por fim os seres humanos, portadores de consciência e de inteligência.
  Se não estivéssemos sob a ação desta criatividade, nunca teríamos chegado até aqui. Detenhamo-nos, por um momento, num tipo de criatividade, aquela  na relação homem-mulher, ponto central nas discussões atuais na Igreja que se propos debater as questões da famíla e da sexualidade.
  Sabemos que há dez mil anos, a história foi marcada pelo patriarcado. Este representou uma via-sacra de sofrimento para todas as mulheres. Mas o que foi construído historicamente pode ser também historicamente deconstruído. É o que está ocorrendo. Essa é a esperança subjacente nas lutas das mulheres oprimidas e de seus aliados entre os homens, esperança de um novo patamar de civilização não mais estigmatizado pela dominação do homem sobre a mulher.
   Mais e mais homens e mulheres são definidos não a partir de seu sexo biológico ou fator cultural, mas a partir do fato de serem pessoas. Entendemos aqui por pessoa todo aquele ou aquela que se sente dono de si e que exercita a liberdade para plasmar sua própria vida. A capacidade de autoprodução em liberdade (autopoiesis) é a suprema dignidade do ser humano que não deve ser negada a ninguém.
  Depois do reconhecimento da pessoa como pessoa, decisivos são os valores da cooperação e dademocracia como valor universal no sentido da participação na vida social, da qual as mulheres historicamente foram alijadas.
  Sua ausência desses valores ajudou a consolidar a dominação e a subordinação histórica das mulheres. Hoje é pela cooperação de ambos, numa ética da solidariedade e do cuidado mútuos, que se construirão relações inclusivas e igualitárias..
  A cooperação supõe cofiança e respeito mútuo numa atmosfera onde a coexistência se funda no amor, na proximidade, no diálogo aberto como tem insistido e mostrado o Papa Francisco.
  Bem enfatizava o grande biólogo chileno Humberto Maturana: a permanência do patriarcalismo e do machismo  representa a tentativa de regressão a um estágio pré-humano que nos remete ao nível dos chpimpanzés, societários mas dominadores.
   Por isso que a luta pela superação do patriarcalismo é uma luta pelo resgate de nossa verdadeira humanidade. Mulheres pelo fato de serem mulheres, ainda hoje, mesmo nos países ricos, recebem menor salário fazendo o mesmo trabalho. E elas compõem mais da metade da humanidade.
  A democracia participativa e sem fim, fundamentalmente, quer dizer participação, sentido do direito e do dever e senso de co-responsabilidade. Antes de ser uma forma de organização do Estado, a democracia é um valor a ser vivido sempre e em todo o lugar onde seres humanos se encontram. Essa democracia não se restringe apenas aos humanos mas se abre aos demais seres vivos da comunidade biótica, pois se reconhece  neles um valor intrínseco e por isso  direitos e dignidade. A democracia integral possui, pois, uma característica sócio-cósmica..
  A superação da ancestral guerra dos sexos e das políticas opressivas e repressivas contra a mulher se dá na mesma proporção em que se introduz e se pratica a democracia real e cotidiana. Foi em nome desta bandeira que a grande escritora e feminista Virgínia Wolff (1882-1941) podia proclamar: “Com mulher não tenho pátria, como mulher não quero pátria, como mulher minha pátria é o mundo inteiro”.
  A luta contra o patriaracado supõe um reengendramento do homem. Seguramente nessa tarefa ele não conseguiria dar o salto de qualidade sozinho e por si mesmo. Daí ser importante a presença da mulher ao seu lado. Ela poderá evocar nos homens o feminino escondido sob cinzas seculares (o cuidado, a cooperação, o poder como serviço, etc). Ela poderá ser co-parteira de uma nova relação humanizadora.
  O primeiro a se fazer é privilegiar os laços de interação mútua e a cooperação igualitária entre homem e mulher. Aqui se impõe um processo pedagógico na linha de Paulo Freire: ninguém liberta ninguém, mas juntos, homens e mulheres, se libertarão num exercício partilhado de liberdade criadora.
  A partir deste novo contexto devem-se recuperar aqueles valores considerados antigos e próprios da socialização feminina, mas que agora devem ser gritados aos ouvidos dos homens e junto com as mulheres procurar vivê-los. Trata-se de um ideal humanitário para ambos. Permito-me resgatar alguns:
  - As pessoas são mais importantes que as coisas. Cada pessoa deve ser tratatada humanamente e com respeito.
  - A violência jamais é um caminho aceitável para a solução dos problemas.
  - É melhor ajudar do que explorar as pessoas, dando atenção especial aos pobres, aos excluidos e às crianças.
  - A cooperação, a parceria e a partilha são preferíveis à concorrência, à auto-afirmação e ao conflito.
   - Nas decisões que afetam a todos, cada pessoa tem o direito de dizer a sua palavra e ajudar na decisão coletiva.
  - Estar profundamente convencido de que o certo está do lado da justiça, da solidariedade e do amor e de que a dominação, a exploração e a opressão estão do lado do errado.
  Outrora tais valores, tidos exclusivamente como femininos, foram manipulados pela mentalidade patriarcal para manter as mulheres subordinadas e dóceis. Hoje, com a mudança do quadro do mundo e da sociedade, tais valores são aqueles que estão no centro do novo tipo de relação homem-mulher. É no exercício dessa mutualidade e reciprocidade paritária que ambos estão se humanizando.
  Leonardo Boff escreveu com Rose-Marie Muraro Feminino-masculino:uma nova consciência para o encontro das diferenças, Recordo 2002,

domingo, 11 de maio de 2014

O capitalismo até tentou matar, mas a Utopia é uma necessidade humana que permanece



Carlos Antonio Fragoso Guimarães

Despertemos para o fato de que os donos do mundo, seus mestres econômico-militares, conspiram para que sejamos apenas mais um ponto sem características distintivas, pois assim não se pode ameaçar as pretensas "autoridades".

A desculpa para o conformismo firma-se, no discurso da Direita, na ladainha alienadora que afirma que as coisas são assim e não se pode mudar. Que alguns serão os mandantes, a maioria, mandada, e que "fazer o que se gosta não é para todos, pois sempre haverá alguém para limpar as ruas". Esta é a lógica do conformismo. Que, assim, deve-se aceitar a realidade da desigualdade....

Mas será que não podemos pensar em como limpar a rua de outro modo? Que a rua, sendo pública, deve ser de responsabilidade de todos? Se fôssemos mais educados e menos consumistas, certamente as ruas seriam mais limpas e mais arborizadas.

Portanto, pensar num mundo melhor é a primeira etapa da ação para torná-lo melhor... Quanto mais ampla a melhoria, mais ampla deve ser o sonho de transformar a realidade.

Por isso, temos a presença constante, embora flutuante em diversos momentos históricos, da utopia.

Utopia que significa uma realidade a ser alcançada, ainda não existente, portanto U-TÓPICA, significando o não-localizado, mas que pode vir a ser ao menos tentado. É a busca por algo inexistente, mas que precisa ser construído.

O reconhecimento do inacabamento humano, de seu vir-a-ser, do seu potencial para mudar e transformar nos permite aceitar a Utopia como necessidade...

É ao se perceber que temos prazo de validade que podemos ser estimulados a fazer a diferença, a fazer uma diferente realidade aqui e agora....

O fenômeno da Experiência de Quase Morte, EQM. Características e Implicações



Detalhe do quadro "A Ascenção dos Abençoados", do pintor renascentista Hyeronimus Bosch, em que se apresenta a famosa visão do "túnel" relatada por grande parte das pessoas que passaram pela Experiência de Quase Morte (EQM)

Apresentamos aqui o vídeo produzido pela ASSEPE, Associação de Estudos e Pesquisa Espíritas da Paraíba, sobre o fenômeno da Experiência de Quase Morte. Abaixo do vídeo a transcrição de parte do texto introdutório, de Carlos Antonio Fragoso Guimarães, e uma discussão das características e implicações da EQM.



“Na natureza, nada se cria, nada se acaba. Tudo se transforma”. Estas conhecidas palavras do químico francês Antoine de Lavoisier nos aponta que, no mundo natural, todas as coisas estão em permanente estado de desenvolvimento, modificação, recomposição e este processo mantém e garante a vida. 

 Toda a vida se expressa na Terra através de relações, interação e troca cíclica de elementos com seu meio, garantindo a renovação constante do fluxo de matéria e energia que formam os organismos vivos.



De fato, todos os elementos básicos que constituem os corpos vivos e que são formados por elementos atômicos que, unidos, constituem as moléculas que formaram os tecidos e órgãos do nosso corpo, são praticamente indestrutíveis. Eles são usados para constituir a base orgânica da vida e, depois, são devolvidos à natureza para que possam novamente ser reutilizados em novas manifestações vitais.

Também a energia obedece à lei de conservação e transformação. A energia do universo, em termos de quantidade, permanece sempre constante, mas se expressa sempre transformada. Uma energia potencial quando utilizada se transforma em energia mecânica, por exemplo, e em calor.

Diante desta perpetuidade dos elementos básicos do mundo físico, que, quando relacionados no fenômeno da vida, se apresentam como um ciclo de manifestação, poderíamos nos perguntar se o mesmo princípio também não valeria para a essência psíquica do ser humano, caracterizado pela sua consciência, senso de identidade, memória e afetividade.

A Crise da Morte

Em nossa cultura e no atual modo que temos de ver a vida, a morte é um momento de extrema crise.

Tendemos a interpretar a morte como o fim total da vida, a cessação definitiva de nossa identidade, de nossa consciência.

 No entanto será este realmente o fim de tudo?


 A EQM


Há algumas décadas, em especial nos últimos quarenta anos, diversos pesquisadores, entre médicos, psicólogos, enfermeiros e outros profissionais, vem coletando relatos de pessoas que, ao enfrentarem a crise da morte nas mais diversas situações, conseguiram retornar à vida com ajuda médica e, para surpresa das testemunhas, relatam ter observado as tentativas de ressuscitamento de um ponto de vista bem diferente de onde estava o seu corpo, e como se comportaram as pessoas ao redor, o que elas disseram e fizeram.

O termo EQM (NDE, em inglês) foi cunhado pelo médico americano Raymond Moody Jr., em meados dos anos 70, para englobar estes relatos. Em 1975 ele publica seu livro “Vida depois da Vida” relatando as experiências de uma parcela de pacientes que foram ressuscitados após terem tido morte clínica. No entanto, relatos parecidos eram conhecidos desde há muitos anos (citar um caso). Elizabeth Kübler-Ross (1926-2004) pesquisou relatos deste tipo em pessoas que viveram em campos de concentração na Polônia.

O resultado do interesse despertado pelos estudos de Moddy e Rosso foi mais diretamente exposto na fundação da International Association for Near-Death Studies (Associação Internacional de Estudos do Quase-Morte), em 1978. 

A associação faz um levantamento global de relatos de EQM, tanto de pacientes quanto da equipe médica e multidisciplinar associada aos pacientes ou pessoas que passam pela experiencia, utilizando sempre a "near-death experience scale" ("escala de experiência de quase morte"), um método criado pelo psiquiatra, professor universitário e parapsicólogo Bruce Greyson para determinar as EQMs legítimas. Estas apresentam um conjunto de características, que se desenrolam em estágios, e que, se não todos os estágios, são encontradas quase sempre nos relatos das pessoas que vivenciaram o fenômeno. 

Estágios da EQM:

a)      Todos os relatos de EQM possuem elementos de semelhança (possuem alguns pontos em comum). A imensa maioria consegue dos que vivenciaram a morte clínica e tiveram a experiências conseguem ver seu próprio corpo bem como os médicos, paramédicos ou, em caso de acidentes ou mortes súbitas, os amigos tentando reanima-lo, de um ponto de vista privilegiado, quase sempre acima destes. Muitos se srupreendem com esta visão. Vários chegam mesmo a estranhar o fato de que tentem reanimar um corpo doente quando se sentem plenamente vivos, com um corpo idêntico, porém mais saudável, que aquele embaixo, neste momento.

b)      Relatam ter deixado de sentir dores e, por vezes, sentem uma grande calma e uma sensação de maior conscientização de si e do ambiente, não se sentindo realmente "mortos". Em grande parte destes relatos, pode haver a sensação de uma presença espiritual amiga a apoiar o paciente, mas que nem sempre é visível, embora possam ouvi-la ou entende-la. Parentes ou amigos já falecidos também são normalmente vistos na ocasião, como pessoas normais,  interagindo com o paciente, mas que não ésão percebidos pelas pessoas que tentam reanima-lo.

c)       Ocorre a visão – e por vezes,também a atração – de um túnel - provavelmente a contrapartida polar do canal de nascimento. A pintura de Hyeronimus Bosch sobre o tema é vista acima, no início desta home page.

d)      Pode ocorrer no correr da travessia deste túnel, ou logo depois de passá-lo, um flashback panorâmico e estranhamente rápido, mas integral, de toda a experiência vivida pelo paciente desde o nascimento (por vezes, desde a vida intrauterina) até o momento da morte.

e)       Muitos relatam que a experiência do túnel é encerrada com a visão de alguma espécie de barreira simbólica, indicando um ponto de não retorno. Esta barreira pode ser expressa por um portão, uma porta, uma ponte, um muro ou qualquer outra coisa que indica entrada ou limite de um outra realidade. Nesta ocasião é comum a visão de mais parentes e amigos já falecidos que amorosamente os recebem e que avisam que o cruzamento deste limiar representa a morte definitiva do corpo. Neste ponto, algumas pessoas são aconselhadas a voltar e, em outros relatos, lhes são perguntados se querem continuar no processo e ir além ou retornar ao corpo para cuidar de parentes, de assuntos pendentes ou para ajudar pessoas.

f)       Há a visão de “seres de luz” que, geralmente, são interpretados, de acordo com a origem religiosa ou a cultura onde a pessoa foi formada, como sendo Jesus, Buda, um anjo, etc. Estes seres também perguntam se a pessoa quer ficar ou retornar ao corpo e à vida física. Eles podem aconselhar o retorno, explicando algum motivo para voltar.

g)      Relutância a retornar ao corpo em boa parte dos casos. Muitas vezes, o retorno é feito com certa contrariedade por parte do sobrevivente (veja, no video, o caso de Sam Reynolds)

h)      A personalidade da pessoa nunca mais é a mesma ao retornar. Perde-se geralmente o medo de morrer na maior parte dos casos e na grande maioria ocorre uma completa reformulação da percepção e concepção da vida, das prioridades e dos valores, quase sempre tornando-se mais calmos, espiritualizados e centrados (incluindo ateus).

i)        Apenas em uma parcela ínfima se tem notícias de uma EQM ruim (geralmente ocorrentes em casos de tentativas de suicídios, ou após a prática de crimes, etc.). Dos 150 relatos confirmados pelo Dr. Moody em seus dois livros clássicos, apenas 3 descrevem experiências negativas. A proporção permanece praticamente a mesma nas pesquisas de outros cientistas.

j)        As experiências religiosas, crenças ou cultura não afetam a probabilidade ou profundidade de uma EQM, apenas a forma de interpretá-las após o evento. Existe mesmo uma estatística que mostra que ateus tiveram mais EQMs que pessoas religiosas.




Apesar do impacto existencial e espiritual destas experiências nas pessoas que as vivenciaram e em muitas que as pesquisaram (Moody, Ross, Lommel, Fenwick, etc) a interpretação de que a consciência não se reduz ao cérebro e que, portanto, pode sobreviver à crise da morte não é aceita (ao menos abertamente) pela maioria dos cientistas. As explicações mecanicistas para as EQMS são geralmente as que seguem: 

A visão do túnel seria fruto da anóxia cerebral. O “falso” abandono do corpo é encontrado em pessoas que passam por situações de estresse e de interferência sináptica por conta de medicamentos ou por problemas neurológicos e de orientação. A sensação de paz é resultado da liberação de endorfinas. 

Mas existem casos onde tais explicações não fazem sentido ou nada explicam. Houve ao menos um caso bem documentado em que todo o sangue do paciente foi drenado, estando o corpo em hipotermia e, ainda assim, a paciente relatou as práticas efetuadas pelo cirurgião vários minutos após o inicio da cirurgia, citando atos e até o que foi dito durante o procedimento.

Para entender o debate entre os pesquisadores pró e contra a explicação de que a EQM demonstraria a sobrevivência após a morte, vejamos o que sobre o assunto é descrito na Wikepedia:

 Pesquisadores explicitamente atrelados ao paradigma mecanicista, como a psicóloga britânica Susan Blackmore e o anestesiologista Lakhmir Chawla, acreditam, por uma questão de preferência e ideologia, na teoria de que as EQMs são alucinações complexas causadas pela falta de oxigênio no cérebro durante a etapa final do processo de morte. No entanto, muitos outros pesquisadores, como o neurologista Peter Fenwick, o cardiologista Pim van Lommel e os psiquiatras Raymond Moody e Bruce Greyson, discordam destas teorias reducionistas, defendendo as experiências como evidências de que a consciência do ser humano existe independentemente do cérebro, argumentando principalmente que muitas pessoas demonstram percepções extrassensoriais com precisão em seus relatos de EQM24 (como por exemplo o famoso caso de EQM da cantora Pam Reynolds) e que não há sinais de funções mentais prejudicadas nas situações clínicas em que as EQMs ocorrem. Como pode uma alucinação provocada por anóxia permitir a percepção de informações posteriormente confirmadas?


físico Sir Roger Penrose e o anestesiologista Stuart Hameroff, baseados na teoria desenvolvida e denominada por eles como orchestrated objective reduction, defendem que em EQM a "alma quântica", ou seja, a consciência como um campo quântico, deixa o sistema nervoso e re-entra no cosmos. De acordo com Hameroff, "é possível que a informação quântica que constitui a consciência possa mudar para planos mais profundos e continue a existir puramente na geometria do espaço-tempo, fora do cérebro, distribuída não-localmente", como uma "alma quântica" à parte do corpo.
Um dos primeiros estudos clínicos sobre experiências de quase morte em pacientes em estado de parada cardíaca foi feito pelo cardiologista holandês Pim van Lommel e sua equipe médica, tendo sido publicado em 2001 pela revista científica Lancet . De acordo com o cardiologista, dos 344 pacientes estudados que foram reanimados com sucesso depois de sofrerem parada cardíaca, 62 (18%) tiveram EQMs e lembraram com detalhes as condições que passaram quando estavam clinicamente mortos. Na conclusão de Lommel, nossa consciência existe independentemente do cérebro; este sendo um veículo físico de expressão da consciência mas não o produtor da mesma.
Entre os relatos intrigantes descritos por Moody em sua obra, encontra-se esse no livro A Luz do Além (1988): "Em Long Island, uma mulher de setenta anos cega desde os dezoito, foi capaz de descrever, com detalhes vívidos, o que aconteceu, enquanto os médicos tentavam ressuscitá-la de um ataque do coração. Ela conseguiu dar uma boa descrição dos instrumentos que foram utilizados, e até mesmo de suas cores. E o mais surpreendente para mim é que a maioria daqueles instrumentos sequer fora concebida na época em que ela ainda podia ver, havia cerca de cinquenta anos. Além de tudo isso, ela ainda disse ao médico que ele usava um jaleco azul quando começou a ressuscitá-la".
Mesmo diante de relatos que para muitos são surpreendentes, a visão materialista reducionista de que alterações funcionais e químicas no cérebro são as responsáveis pelas experiências de quase morte, ao menos até o momento é a dominante em virtude da vigência de um paradigma mecanicista, cuja visão subjacente é eminentemente materialista que, orientando o pensamento, impede uma percepção dos indícios que deem suporte a uma visão dualista mais ampla como científica; e em segundo devido a considerações levantadas quanto se busca definir de forma rigorosa o que é "consciência".


Abaixo, a série de reportagens do Jornal da Band, de 2011, sobre EQMS:




Paulo Nogueira sobre a entrevista de Ney Matogrosso na TV Portuguesa e a influência da mídia em seu discurso



Segue texto de Paulo Nogueira sobre a polêmica da entrevista de Ney Matogrosso para a TV Portuguesa:


Animada controvérsia em torno de uma entrevista para uma emissora portuguesa na qual Ney Matogrosso faz um retrato desalentador do Brasil.
Me pedem que analise a entrevista, e aqui vou eu.
Primeiro, é necessário entender Ney Matogrosso. É um homem sensível, de consciência social, a quem a desigualdade claramente incomoda.
Ele não é, portanto, um fanfarrão como Lobão ou Roger do Ultraje, para ficar no universo dos cantores.
Ney Matogrosso diz, a certa altura, que gostaria de poder traçar um quadro mais alegre do Brasil, e deve-se acreditar nisso.
Ele fala sentido de Amarildo e dos desvalidos brasileiros removidos de suas casas humildes por conta de obras da Copa.
Como discordar aí?
O custo social da Copa, expresso nos removidos e nos operários mortos nas obras em razão de condições precárias de trabalho ou excesso de pressa por causa do mau planejamento, bem, este custo haverá de nos assombrar por muito tempo.
Quando algumas pessoas afirmam que a hora de protestar contra a Copa era quando ela foi anunciada, ignoram que ninguém sabia, então, da dimensão do custo social.
Onde começam os problemas do desabafo de Ney?
Quando ele envereda pelo campo da corrupção. Vê-se, aí, que ele sofreu e sofre uma brutal lavagem cerebral da mídia. Ele, essencialmente, reproduz colunistas e editorialistas do Globo, da Folha e do Estadão. Provavelmente seja vítima, também, do veneno da Globonews.
Ao longo da história, a mídia – que sempre representou os privilégios – invariavelmente recorreu à corrupção, não raro inventada, para sabotar administrações populares.
Foi assim com Getúlio e seu mar de lama. Foi assim com Jango, objeto de copiosas acusações de corrupção. E tem sido assim com Lula e Dilma.
A classe média, historicamente, se comove quando o assunto é corrupção. É relativamente fácil manipulá-la dizendo que você vai acabar com a corrupção.
O PT só não foi derrubado – pelas urnas – em 2006, com o uso calculado da corrupção para minar Lula, porque brasileiros simples entenderam, do seu jeito, que os moralistas estavam tentando bater sua carteira. Se dependesse da classe média, Lula não teria sido reeleito.
Ney Matogrosso é um dos brasileiros massacrados pela mídia. Isto ficou claro.
Um fator que agrava o quadro é a idade de Ney Matogrosso. Ele não é um homem da era da internet. A mídia digital é um formidável contraponto ao jornalismo das grandes empresas jornalísticas.
A geração de Ney Matogrosso é a geração do papel – jornais e revistas – e da televisão.
Para conhecer o outro lado das coisas, Ney Matogrosso tem apenas um caminho: a internet.
Fora disso, ele vai continuar a repetir as coisas que a mídia tradicional impinge a tantos brasileiros.

Bob Fernandes à propósito da banana de Daniel Alves, a hipocrisia da elite fascista e a conversa zoológica que se seguiu



 Segue o comentário do jornalista Bob Fernandes sobre a hipocrisa racista das elites brasileiras. Abaixo do vídeo, a transcrição textual  de seu comentário:





Apropósito da banana do Daniel Alves e da conversa zoológica que se seguiu.
A propósito dos que se esquecem, ou fazem de conta não saber que o Brasil suportou a escravidão por 380 anos. Quatro quintos da sua história.
 
A propósito dos imigrantes haitianos, que são negros e pobres. E de imigrantes quando são brancos, como são os da leva mais recente.
 
Entre 2010 e março deste ano foram registrados 11 mil 916 haitianos. Isso no Sistema Nacional de Cadastro e Registro de Estrangeiros (SINCRE), da Polícia Federal.
 
Outros 12 mil haitianos têm visto de entrada ou já chegaram, mas ainda não estão regularizados.
 
A diáspora do Haiti espalhou 4 milhões dos seus habitantes pelo mundo. Uns 25 mil estão no Brasil.
 
Enquanto estavam lá no Acre, ou de lá vinham sem ruído, algumas manchetes. E silêncio.
 
Com o desembarque em massa São Paulo, a troca de acusações entre altas autoridades, e ares de escândalo.
 
O mesmo não se viu em recente onda de migração para o Brasil. Como se sabe, o mundo quebrou em 2008. Em especial, Europa e Estados Unidos.
 
Somente entre 2010 e 2013, o Brasil deu visto de trabalho para 9 mil imigrantes de origem europeia ou norte-americana. Além de asiáticos, a maioria do Japão e da China.
 
Nove mil, sem contar outros. Como aposentados com, ao menos, R$ 4 mil reais ao mês. Ou qualquer um que tivesse R$ 150 mil e informasse a intenção de investir em trabalho autônomo.
 
Ou, ainda, quem alegasse o motivo de reunir-se à família; isso num pais, o Brasil, com milhões de famílias vindas do exterior
 
Entre 2010 e 2012 o numero de vistos para trabalho aumentou em 70%.
 
A Europa tinha 10% de desemprego, em média.
 
A Espanha, com 26% de desemprego, 55% entre os jovens. Itália, Portugal, Grécia e anglo-saxões, entre outros, viviam o auge da crise.
 
O Brasil assistiu aquela onda de imigração, essa última, com naturalidade. Até com certo orgulho.
 
É bom não esquecer a diáspora brasileira que se seguiu às crises econômicas dos anos 80 e 90.
 
O IBGE calculou em 500 mil os brasileiros no exterior. O Itamaraty chegou a informar 2,5 milhões, com diminuição de 30% nessa cifra desde 2008.
 
É bom não esquecer a História, nessa hipócrita e zoológica salada, que mistura bananas e… bananas.

sábado, 10 de maio de 2014

A desmoralização do STF pelo próprio STF e o agrado à mídia

Segue texto do jornalista Paulo Nogueira e, logo após, texto de Eduardo Guimarães. Ao final, pequeno vídeo-reflexão de Paulo Henrique Amorim sobre Barbosa:

Quem desmoralizou o STF foi o próprio STF


Você pode discordar da porcentagem utilizada por Lula para definir o que foi o julgamento do Mensalão.

Lula falou em 80% de critérios políticos e 20% de critérios jurídicos.

O que não dá, a não ser que você seja um fanático antipetista, um caçador de petralhas, é discordar de que os juízes se pautaram muito mais pela política do que pela justiça em si.

O julgamento foi político do início ao fim. Você começa pelo empenho em juntar quarenta réus com um único propósito. Fornecer à mídia – visceralmente envolvida na politização do julgamento – a oportunidade de usar a expressão “Ali Babá e os quarenta ladrões”.

Outras coisas foram igualmente absurdas. Por que, em situações juridicamente semelhantes, Eduardo Azeredo do PSDB percorreu o caminho jurídico normal e os réus do Mensalão foram direto ao Supremo, sem chance, portanto, de outras instâncias?

E depois, como classificar a Teoria do Domínio do Fato, que dispensou provas para condenar?

E a dosimetria, pela qual, numa matemática jurídica abstrusa, condenados tiveram penas maiores do que o assassino serial da Noruega?

Num gesto cínico bizarro, o ministro Marco Aurélio de Mello disse que o STF é “apartidário” para rebater as afirmações de Lula.

Quem acredita nisso acredita em tudo, como disse Wellington. Um simples olhar para Gilmar Mendes – que até a jornalista Eliane Cantanhede num perfil classificou como tucano demais destroi o “apartidarismo”.

O STF se desmoralizou não porque Lula falou nos 80%, mas pelo comportamento de seus juízes.

Ou eles estavam zelando por sua honra e prestígio ao posar festivos ao lado de jornalistas “apartidários” como Merval Pereira e Reinaldo Azevedo, como se entre mídia e justiça não houvesse um problema de conflito de interesses?

E quando emergiram as condições em que Fux conquistou seu lugar no STF com o famoso “mato no peito” depois de uma louca cavalgada na qual se ajoelhou perante Dirceu?

A completa falta de neutralidade do STF se estenderia para além do julgamento. Como classificar a perseguição de Joaquim Barbosa a Dirceu e a Genoino?

E a tentativa de negar o direito aos chamados recursos infringentes fingindo que a Constiuição não previa isso? Apartidarismo?

Um argumento falacioso que se usa a favor do STF é o seguinte: mas foi o PT quem tinha indicado a maioria dos juízes.

Ora, então indicou mal, a começar por Barbosa, nomeado por Lula. Eles foram antipetistas estridentes a despeito de terem sido nomeados pelo PT.

Seria horrível se agissem como petistas, é claro. Mas foi igualmente horrível terem se comportado como antipetistas.

O que a sociedade queria, ali, era uma coisa chamada neutralidade, uma palavra muito usada hoje por conta do Marco Civil da internet.

Outro argumento desonesto é o que estica os dedos acusatórios para Lewandowski. Ora, Lewandowski não emplacou uma. Foi voto vencido sempre que se contrapôs à manada.

Entre os juízes da primeira leva, foi o único que se salvou, e isto provavelmente vai ficar claro quando a posteridade estudar o Mensalão.

Se pareceu petista foi porque o ar estava viciadamente antipetista. Era como no passado da ditadura: num ambiente tão anticomunista, todo mundo era comunista.

O STF é hoje um arremedo de corte suprema, mas por culpa sua, e apenas sua.

O Mensalão deixou claro, ao jogar luzes sobre o STF, que uma reforma na Justiça é urgente para que o Brasil possa avançar. (Veja também: Bob Fernandes sobre Gilmar Mendes, que nada fez contra a compra da emenda da reeleição quando servia a FHC, e tanto fez por Daniel Dantas, Abdelmassih e outros poderosos...)

Fonte: Diário do Centro do Mundo


Barbosa pôs o último prego no caixão do julgamento do mensalão



O tempo político difere do da Justiça. Assim, os malabarismos do presidente do Supremo, Joaquim Barbosa, encenados para produzir efeito político-eleitoral em benefício dos adversários do PT e do governo Dilma, podem estar sendo úteis ao fim a que se destinam, mas, a cada novo malabarismo, o julgamento da ação penal 470 sofre um golpe mais duro.
Ao longo deste ano, os ferimentos que aquele julgamento sofreu agravaram sua saúde jurídica, segundo avaliação de contingente crescente de juristas. Revisitemos, pois, fatos que contribuirão para o sepultamento do processo em um futuro não tão distante.
O ferimento mais grave talvez tenha sido a queda do crime de formação de quadrilha em sessão do STF de 27 de fevereiro último. Ao reconhecer oficialmente que não houve quadrilha, a Corte condenou à morte o julgamento do mensalão.
E quem permite tal previsão é o próprio Barbosa. Na sessão em que caiu o crime de quadrilha, ele disse, com semblante grave, que estava tendo início “um processo”. Qual seja, o de anulação do julgamento por cortes internacionais.
Recentemente, este Blog denunciou que um dia antes de decretar a prisão de Dirceu e Genoino, entre outros, Barbosa criou uma nova classe processual para executar suas penas. A adoção dessa medida servirá de ponto de partida para denúncia de perseguição política que será feita ao julgamento do mensalão.
A norma 514 não estava prevista no Regimento Interno do Supremo um dia antes de o presidente do STF expedir ordens de prisão de 12 condenados do mensalão. A classe processual inédita foi denominada Execução Penal (EP). Segundo a nova norma, processos penais julgados no STF devem ser distribuídos ao seu relator, que passou a ser o responsável pela execução penal dos condenados até o fim de suas penas.
Apesar de a resolução 514 do STF facultar a Barbosa administrar a execução penal de todos os réus do mensalão, ele só tem administrado diretamente as penas dos petistas condenados, deixando as dos outros condenados para juízes de execução penal comuns.
Agora, a resolução 514 – flagrantemente feita para promoção de perseguição política a petistas condenados – acaba de ganhar uma prova de sua natureza. Na última sexta-feira (9), baseando-se em filigrana jurídica, Barbosa negou pedido feito por Dirceu para trabalhar fora da prisão. Valeu-se do artigo 37 da Lei de Execuções Penais, que exige cumprimento de ao menos um sexto de penas de reclusão para concessão do benefício de trabalho externo.
A jurisprudência das execuções penais pelo Brasil afora, porém, mostra que a aplicação do artigo 37 não tem sido seguida e por uma razão muito simples: o sistema carcerário está superlotado e, assim, os juízes não enxergam benefícios no endurecimento de penas de criminosos em processo de soltura quando não se tem lugar para colocar tantos condenados que nem sequer foram presos por falta de vagas no sistema carcerário.
Aliás, a jurisprudência do próprio STF, a partir de julgamento de caso análogo em 1999, tornou-se a de que o artigo 37 só valeria para presos no regime fechado. Dessa maneira, a aplicação desse artigo soma-se a outras condutas de Barbosa que, mais adiante, servirão de prova de que ele tem se dedicado a uma vendeta política particularmente contra Dirceu.
A maioria dos juristas dedicou repúdio a essa decisão casuísta de Barbosa. A exceção foi advogada do jornal Folha de São Paulo, que argumentou, recentemente, que, devido a ter havido “roubo de recursos públicos”, justificar-se-ia o endurecimento da pena de Dirceu.
Contudo, até estupradores e assassinos têm sido beneficiados com a permissão de trabalho externo, quando em regime semiaberto.
Além desses fatos, há um outro que sustentará com força a tese de perseguição política no julgamento do mensalão. O envio do julgamento do mensalão mineiro para a primeira instância, a anuência do Supremo para estratégia do principal réu desse processo, o ex-presidente do PSDB Eduardo Azeredo, de renunciar ao mandato de senador para escapar do julgamento pelo Supremo, reforça sobremaneira a denúncia do julgamento do mensalão.
Eis que ganha sentido a preocupação de Barbosa, externada na sessão do STF que, em fevereiro, pôs abaixo a tese de que teria sido montada uma quadrilha para roubar recursos públicos e comprar parlamentares. Sem o crime de quadrilha, não haveria por que julgar 40 réus no STF quando apenas 3 tinham foro privilegiado.
Esse, aliás, é o sentido do primeiro recurso feito a Corte internacional contra o julgamento do mensalão.
No mês passado, os advogados dos executivos do Banco Rural condenados no julgamento do mensalão recorreram à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, da Organização dos Estados Americanos (OEA), pedindo novo julgamento de Kátia Rabello, José Roberto Salgado e Vinícius Samarane.
O cerne da discussão apresentada na denúncia é o direito ao duplo grau de jurisdição. Na peça de recurso àquela Corte Internacional, os advogados criminalistas Márcio Thomaz Bastos, José Carlos Dias e Maurício de Oliveira Campos Júnior abordam desde a queda do crime de quadrilha até a decisão que favoreceu adversários do PT em julgamento similar, ou seja, a concessão de duplo grau de jurisdição para Azeredo, do PSDB.
Os outros réus ainda não recorreram à Corte Internacional devido ao fato de que não foram esgotados os recursos à Justiça brasileira. No caso dos três réus do Banco Rural, não há mais possibilidade de recursos, mas aos réus petistas anda cabe revisão criminal devido à queda do crime de quadrilha ter desestruturado a tese que fundamentou suas condenações.
Contudo, a revisão criminal do processo, segundo informações do staff de Dirceu, ainda não foi interposta no STF porque esse e outros réus esperam a saída de Barbosa da Presidência da Corte, no fim do ano, para que alguma chicana jurídica não seja usada por ele.
A revisão criminal, sem Barbosa na presidência do STF, tem boas chances de passar, podendo gerar um novo julgamento, de forma que o recurso à Corte Internacional de Direitos Humanos deve esperar.
A queda do crime de quadrilha desestrutura a tese que condenou Dirceu por outros crimes e, mais do que isso, a tese que permitiu julgar no STF 37 pessoas sem direito a foro privilegiado.
Seja como for, muitos especialistas já consideram que, se no STF perdurar o corporativismo notório que permeia aquela Corte, em uma instância isenta será muito difícil que argumentos tão potentes não sejam reconhecidos.
Como signatário do Pacto de San José da Costa Rica, o Brasil terá que respeitar o entendimento daquela Corte e, assim, refazer o julgamento da Ação Penal 470. Muito provavelmente os réus petistas já estarão em liberdade, mas a condenação internacional do julgamento do mensalão produzirá um fato político e institucional histórico.
No futuro, quando a farsa do julgamento do mensalão for desmascarada internacionalmente, haverá possibilidade até de se pedir apuração de responsabilidades pelo empreendimento de um crime de Estado análogo ao da ditadura militar. Um crime que jogou pessoas na prisão sem provas e com supressão de direitos internacionalmente reconhecidos.